O prazer que tenho quando sinto raiva

20 de abril, 2017 - POR Andre Moura

Pode perceber: sempre há um prazer quando se sente raiva.

Você concorda?… Não concorda?…

Bom, pelo menos, eu vejo que isso acontece comigo.

E aí, por causa desse prazer, a raiva vira um vício. Houve uma época em minha vida que eu estava tão acostumado em sentir raiva que eu tinha raiva de coisas…

Vou dar um exemplo para ilustrar.

Digamos que eu fosse fechar uma porta, vamos dizer, a do meu quarto. E eu ia para a tarefa como eu sempre fazia, assim, despreocupado, sem olhar. Eu estava tão acostumado a fechar aquela porta que sabia direitinho onde empurrar e com que força e tal. Normal, não é? A gente faz isso. Mas daquela vez, a porta não fechava. Batia e voltava. Talvez estivesse empenada ou qualquer outra coisa.

Ao perceber que a porta ainda estava aberta, eu voltava à tarefa, agora com uma pequena raiva. E repetia a ação do mesmo jeito que não tinha dado certo da primeira vez (um tipo de birra, entende?). Claro, óbvio, a porta se abria de novo.

Aí eu ficava louco. “Filha da p…!!!”. Como era possível que aquela porta, que sempre eu fechava daquele jeito, agora não estivesse fechando?!? Ah… Na terceira vez, em vez de eu tentar fechar a porta como uma pessoa razoável, eu arrebentava a porta de encontro ao batente.

De propósito, a porta não fechava. Batia e voltava. Talvez na minha cara. Você já assistiu Pica-pau, ou Pato Donald? Pois é.

Da quarta vez eu desistia de fechar a porta e tomava a única decisão sensata: agressão. Com o puxador da porta girado (ou seja, desistindo completamente de fechar a porta) eu iniciava uma sequência de pancadas da porta no batente. Para ela ver o que era bom!

Eventualmente, se a porta não quebrasse, eu conseguia que ela se fechasse.

***

Essa história ilustra uma situação, que certamente aconteceu comigo (talvez não exatamente assim, mas parecido), onde se vê uma raiva indiscutivelmente insana. Qual o sentido disso?

Tudo bem, o sentido parece que não existe, mas eu vejo uma explicação. Eu vejo claramente que há um prazer no meio dessa raiva. Na minha história, por exemplo, havia uma satisfação, nem que fosse pequena, de ter me vingado da maldita da porta! Aí, como já disse, esse prazer pode viciar. Vira meio que um mecanismo automático. Raiva em todo lugar, em toda oportunidade. Até raiva de coisas, como da porta. Certamente passa a ser um jeito de lidar com as frustrações da vida, mesmo que não seja muito sensato.

Eu estava justamente pensando sobre isso e me veio uma imagem interessante. Pareceu-me que o prazer associado à raiva está ligado à fantasia que se cria: uma história de luta pela justiça! Ou qualquer outra fantasia nesse sentido. Histórias dão prazer, não dão? Como assistir um filme americano em que você quer que o vilão morra!

O problema das fantasias é que elas não são a realidade (óbvio?). Deixa eu explicar melhor. Não sendo a realidade, não é muito eficiente fazer qualquer coisa baseando-se nelas. Ou seja, a decisão que se toma com base na fantasia acaba não funcionando muito bem. Você já viu aquela história do coelho e do boneco de piche? O coelho, achando que o boneco era gente e o estava ignorando, resolveu esbofeteá-lo. Mas como era um boneco feito de piche, a cada novo golpe, mais preso o coelho ficava. (A versão brasileira dessa história é com um macaco; se você quiser conhecê-la, pode encontrá-la aqui). Essa imagem diz muito, eu acho. Ilustra como a raiva tem esse poder de nos prender.

Pois então eu resolvi mudar. E essa mudança não é fácil, viu? Porque a raiva vinha (já era automático) e o exercício era não alimentá-la. Eu passei a me contar uma nova história: “Se aqui só tem essa coisa e eu, não pode ser a coisa que é a culpada (afff, claro, né?), tem que ser eu… ou melhor, eu sou o responsável pela coisa não estar funcionando, deixa eu melhorar aqui o meu jeito de fazer isso”.

Essa era uma história que tirava a raiva da cena.

Junto com a história, estabeleci o seguinte método: se não deu certo da primeira vez, eu respiro; e aí, tento de novo com muuuuita atenção e cuidado.

Quando consistentemente minha eficiência melhorou, eu me senti muito melhor. Essa sensação não veio da primeira vez, mas veio depois de algum tempo praticando.

***

No caso das raivas de coisas (por exemplo, da porta) é indiscutível que se trata de uma fantasia. A coisa (a porta, por exemplo) não tem qualquer má intenção a meu respeito, certamente.

Mas e quando falamos das raivas que sentimos de outras pessoas?

Meu trabalho é lidar com conflitos. Por isso estou sempre olhando para a raiva com muito interesse. Tanto nos meus próprios conflitos quanto nos conflitos de outras pessoas. E posso garantir que muitas vezes há sim fantasias ligadas à raiva nesses casos. E aí o método se aplica também.

Outras vezes não, é mais complexo mesmo. Podemos até um dia discutir aqui se não há momentos em que uma vingança é necessária, como um fechamento de ciclo, uma volta ao equilíbrio (não estou dizendo que é, acho só que seria uma conversa interessante).

Mas, de qualquer forma, você pode olhar aí: de um jeito ou de outro esse prazerzinho associado à raiva está lá.

Acho que olhar para ele honestamente sempre pode ajudar.

Fields marked with an * are required