O caminho das pedras

6 de dezembro, 2016 - POR Andre Moura

Outro dia eu estava passando por uns canais de TV e acabei parando em um programa sobre cachorros com comportamentos difíceis. Nele, uma espécie de coach de animais – com poderes quase místicos – se apresenta à tarefa de consertar o problema. A história que assisti me fez pensar em conversas difíceis, por isso resolvi escrever.

Para entendê-la – a história, digo –  é preciso conhecer o comportamento do cachorro. Normalmente o animal estava bem, tranquilo, parecia mesmo em paz. Mas, de repente – aparentemente sem explicação – mudava de humor e ficava assustadoramente agressivo. Virava um risco para pessoas que cruzavam seu caminho. Parecia um tipo de esquizofrenia.

Das situações apresentadas, particularmente uma se repetia rotineiramente. Acontecia com o vizinho. Toda vez que ele saía pela manhã, o cachorro ameaçava atacá-lo. E só era contido pela corrente que o prendia. Como o cachorro não era pequeno, e a rotina era constante, aquilo era assustador e o vizinho chegou ao ponto de ir falar com a polícia. Esse era um dos principais problemas que o comportamento do cachorro vinha trazendo a seus donos. E foi aí que entrou em cena o tal coach de cachorros.

O coach em um primeiro momento observa as situações. Antes de fazer ou propor qualquer coisa ele observa. No episódio em questão, como o caso do vizinho era um que se repetia sempre, ele combina com todos (o vizinho e os donos) uma reprodução da situação, para que ele, escondido, possa observar.

No horário de sempre, o vizinho sai de casa e caminha até a calçada. O cachorro, no quintal ao lado, observa deitado. Durante uma boa parte da caminhada do vizinho nada acontece. Mas, de repente, aparentemente sem motivo, o cachorro dispara e salta para morder o homem, sofrendo um solavanco que o puxa de volta, por causa da corrente presa em seu pescoço. Claro que o animal não desiste e continua latindo e ameaçando.

Se eu fosse o vizinho acho que também chamaria a polícia.

Ao fim do teste, o coach se reúne com os donos e com o vizinho e propõe que façam um novo teste no dia seguinte. Só que desta vez ele modificaria uma coisa. Saindo da frente da casa do vizinho indo em direção à calçada havia um caminho de pedras. Esse caminho se interrompia no meio do gramado. O coach sugeriu que eles improvisassem um complemento para a trilha, de forma que ela chegasse até a calçada. Fizeram isso com um material que tinham em depósito. E no dia seguinte repetiram o experimento.

Conforme o coach esperava, dessa vez o vizinho percorreu todo o caminho e o cão nem se mexeu!

A hipótese que ele tinha – e que se comprovou – era que o cachorro, por não ter claro que havia um limite entre as casas, achava que o vizinho estava invadindo seu território ao pisar no gramado.

Esse foi o começo do trabalho com o cachorro. A partir daí o programa seguiu. Mas vou parar a história por aqui. Porque o que me inspirou a escrever este post foi o DRAMA DO VIZINHO e a percepção de como esse drama pode se conectar com aqueles que NÓS vivemos.

Muitas vezes nos encontramos em uma situação em que a óbvia responsabilidade pelo nosso sofrimento é do outro. No caso do vizinho era aquele cão dos infernos!

Mas uma mudança na forma de enxergar a situação pode ajudar muito. A partir do momento em que o vizinho entendeu COMO ele era responsável por disparar o comportamento agressivo no cachorro, ele entendeu o que precisava fazer. Pensar sobre a nossa própria responsabilidade em uma situação desafiadora não se trata de assumir culpas. Trata-se de encontrar onde está o PODER de mudar. Não era culpa do vizinho que o cachorro o atacasse. Mas, sim, ele estava fazendo algo que estava provocando aquele comportamento.

E tem um segundo aspecto dessa história que acho bem simbólica. O problema do cachorro não se resolveu quando o vizinho completou a trilha de pedras. Ali, na perspectiva da patologia do cachorro, foi só o começo de um trabalho que teve muito suor e descobertas e exercícios e aprendizados. Mas da perspectiva do vizinho, o problema que era dele estava resolvido.

Quando alguém busca e encontra a própria responsabilidade em um conflito, isso não o torna responsável pelo outro. Entender o que o outro faz que provoca dores – e fazer alguma coisa a respeito disso – é um problema dele.

É claro, você pode querer ajudá-lo, se tiver um bom coração e tal. É possível. Mas o que normalmente se faz é ficar apontando culpa. E apontar a culpa do outro é uma resposta à raiva… o que não parece ser bem o caso de querer ajudar, certo?

Portanto, se seu maior interesse for resolver sua parte, vá até onde você tem PODER. Vá buscar sua própria RESPONSABILIDADE.

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