10 formas de ter conversas melhores

14 de julho, 2016 - POR Andre Moura

Celeste Headlee é uma mulher que trabalha entrevistando pessoas em um programa de rádio onde é a apresentadora. Um trabalho que depende de saber construir boas conversas. Por causa dessa expertise, ela foi chamada a dar uma palestra no TEDx de Savanah, Georgia. Encontrei o vídeo de sua apresentação outro dia e, quando o assisti, gostei muito. Achei o conteúdo simples e ao mesmo tempo muito rico e bem aplicável ao nosso dia-a-dia. E tem muito a ver com o que falamos por aqui.

Então resolvi trazê-lo para cá. Está logo abaixo. Como ele está todo em inglês, sei que isso pode ser um problema para alguns. Por isso fiz a tradução do conteúdo e a coloquei logo depois do vídeo. Se você não puder assistir o vídeo, vale a pena ler.

Aqui está o vídeo:

E aqui a tradução:

“Oi. Quantos de vocês já excluíram amigos no Facebook porque eles disseram alguma coisa ofensiva sobre política, ou religião, ou educação? (Boa parte da audiência levanta a mão em resposta.) Ou sobre comida? (Risos.)

Quantos de vocês conhecem pelo menos uma pessoa que vocês evitam porque simplesmente não querem conversar com ela? (De novo, muitas mãos se levantam.)

Antigamente, para se ter uma conversa educada e tranquila, bastava-se seguir o conselho do personagem Henry Higgins no filme My Fair Lady: fale apenas do tempo e da saúde!

Mas hoje em dia, com a questão do aquecimento global e das pessoas que são contra vacina… esses assuntos também deixaram de ser seguros.

Então…

Este mundo onde vivemos – este mundo onde cada conversa tem o potencial de virar uma discussão, onde os políticos não conseguem falar uns com os outros, onde até nos assuntos mais triviais tem gente defendendo apaixonadamente tanto um lado quanto o outro – este mundo não está normal.

Pew Research – um conhecido instituto norte-americano – fez uma pesquisa com 10 mil norte-americanos e descobriu que neste momento as pessoas estão mais divididas do que jamais estiverão em qualquer outro período da história!

Nós estamos muito menos dispostos a fazer concessões. O que significa que não estamos escutando uns aos outros. E nós tomamos decisões sobre onde viver, com quem casar e até quem serão nossos amigos, baseados somente no que já acreditamos. De novo, vejam, NÓS NÃO ESTAMOS ESCUTANDO UNS AOS OUTROS.

Uma conversa demanda um equilíbrio entre falar e escutar. E, em algum lugar do caminho, nós perdemos esse equilíbrio. Em parte, isso se deve à tecnologia. Aos smartphones que vocês têm, ou em suas mãos, ou perto o suficiente para pega-los rapidamente.

De acordo com Pew Research, um terço dos adolescentes norte-americanos trocam mais de 100 mensagens de texto por dia. E muitos deles, quase todos, se comunicam com os amigos mais através de mensagens do que falando cara a cara.

No The Atlantic – conhecido periódico norte-americano – há um artigo muito bom escrito por um professor de ensino médio. Ele deu a seus alunos um projeto de comunicação. Ele queria ensiná-los a falar sobre um assunto específico, sem que precisassem usar notas. E no artigo ele diz isso: ‘Eu cheguei à conclusão que a competência conversacional deve ser a habilidade mais negligenciada dentre aquelas que nós falhamos em ensinar’.

Crianças passam horas de seus dias se relacionando com ideias e uns com os outros através de telas. Mas raramente têm a oportunidade de exercitar suas habilidades de comunicação interpessoal. Pode parecer uma pergunta estranha, mas temos que nos fazê-la: Há alguma habilidade no século XXI mais importante que do que ser capaz de manter uma conversa coerente e segura?

Eu ganho a vida falando com as pessoas. Vencedores de prêmios Nobel, motoristas de caminhão, bilionários, professores de educação infantil, chefes de estado, encanadores. Eu converso com pessoas de quem gosto, eu converso com pessoas de quem eu não gosto, eu converso com pessoas de quem eu descordo profundamente. Mas ainda assim eu tenho boas conversas com elas.

Então eu gostaria de passar os próximos minutos ensinando-os como falar e como escutar. Muitos de vocês já ouviram vários conselhos sobre o assunto. Coisas como: ‘olhe a pessoa nos olhos’, ou ‘pense com antecedência em assuntos interessantes para conversar’, ou ‘acene com a cabeça e sorria para mostrar que você está prestando atenção’, ou ‘repita o que você acabou de ouvir ou resuma’… Olha, eu quero que você esqueça tudo isso, é tudo besteira.

Não há nenhuma razão em tentar mostrar que você está prestando atenção se você está de fato… prestando atenção!

Eu uso as mesmas habilidades quanto atuo como entrevistadora profissional ou quando atuo na vida cotidiana. Ou seja, o que vou fazer aqui é ensiná-los a entrevistar pessoas. E isso vai ajuda-los a serem melhores em suas conversas. Vai ajuda-los a terem conversas sem perder seu tempo, sem ficar entediados e – por favor, Deus! – sem ofender ninguém.

Todos nós já tivemos conversas muito boas. Nós sabemos como é. É o tipo de conversa da qual você sai se sentindo inspirado, ou sentindo que fez uma conexão verdadeira, ou que foi perfeitamente compreendido. Não há razão para que a maioria de suas interações não seja assim. E para isso eu tenho 10 regras básicas. Eu vou apresenta-las a seguir. Honestamente, se você escolher apenas uma delas e apropriar-se de verdade, você já vai experimentar conversas melhores:

  1. Não faça mais de uma coisa ao mesmo tempo.
    Não se trata simplesmente de deixar de lado seu celular ou seu tablet ou o quer que esteja em suas mãos. A ideia aqui é: esteja presente. NAQUELE MOMENTO. Não esteja pensando na discussão que teve com seu chefe, ou no que você vai fazer no jantar. Se você quer terminar a conversa, termine-a. Mas enquanto estiver nela, não esteja meio lá, meio cá.
  2. Não advogue ou faça sermões
    Se você quer colocar sua opinião sem estar disposto a dar qualquer oportunidade para resposta, ou argumentação contrária, ou crescimento… tenha um Blog!
    Tem uma razão muito boa pela qual não permito ‘sermões’ em meu show é a seguinte: eles são muito chatos! E normalmente, totalmente previsíveis. Você não quer ser assim. Você deve entrar em cada conversa assumindo que tem algo a aprender.
    O famoso terapeuta M. Scott Peck disse que escutar de verdade requer que se deixe de lado si mesmo. E algumas vezes isso quer dizer deixar de lado suas opiniões pessoais. Ele disse que, ao perceber essa aceitação, a pessoa que fala vai se sentir cada vez menos vulnerável e cada vez mais aberta a compartilhar seu mundo interior.
    Portanto, assume que você sempre tem algo a aprender. ‘Todo mundo que você encontrar certamente sabe algo que você não sabe’ – Bill Nye
  3. Use pergunta abertas
    Pegue a dica de jornalistas: comece suas questões por ‘quem’, ‘o que’, ‘quando’, ‘por que’ ou ‘como’. Se você fizer uma pergunta complicada (ou seja, com conteúdo já elaborado), é provável que receba uma resposta simples. Se eu lhe perguntar ‘você estava apavorado? ’, você responderá à palavra mais forte na sentença, nesse caso ‘apavorado’, e vai dizer ou ‘sim, eu estava! ’ ou ‘não, eu não estava! ’. ‘Você estava com raiva? ’, ‘Sim, eu estava com muita raiva! ’.
    Deixe que eles descrevam! Eles são quem de fato sabem o que se passou com eles. Tente perguntar coisas do tipo: ‘Como foi? ’ ou ‘O que você sentiu?’. Eles vão ter que parar por um momento e pensar. E você vai acabar recebendo uma resposta muito mais interessante.
  4. Respeito o fluxo
    Isso significa que pensamentos virão à sua mente e você terá que deixá-los ir embora. Todos já ouvimos entrevistas em que o entrevistado engata a falar por uns bons minutos e então o entrevistador volta com uma questão que parece vinda do nada! Completamente desconectada! Ou que já foi respondida! Isso significa que o entrevistador provavelmente parou de ouvir havia uns dois minutos porque ele teve uma brilhante ideia para uma pergunta e ficou apegado em fazê-la de qualquer jeito.
    E nós fazemos exatamente a mesma coisa. Nós estamos tendo uma conversa e, de repente, lembramos daquela vez em que encontramos com Hugh Jackman no Starbucks… e paramos de ouvir.
    Histórias e ideias vão aparecer para você. E você deve deixa-las vir e ir embora.
  5. Se você não sabe, diga que não sabe
    Pessoas no rádio têm a consciência de que estão sendo gravadas. Por isso elas são mais cuidadosas em dizer no que elas são experts e no que elas NÃO SÃO. Faça isso.
  6. Não equipare sua experiência com a do outro
    Se o outro está falando sobre ter perdido um membro da família, não comece a falar de quando você perdeu um membro da família. Se o outro está falando dos problemas que está tendo no trabalho, não fale sobre como você odeia seu trabalho. Não é a mesma coisa. Nunca é a mesma coisa. Todas as experiências são individuais. E, mais importante, quando o outro fala, você não é o centro, desculpe. Você não tem que provar como é incrível ou o quanto você sofreu.
    Alguém perguntou ao Stephen Hawking qual era seu QI. Ele disse: ‘Eu não tenho ideia. As pessoas que saem por aí se gabando de seu QI são idiotas. ’
    Conversas não são uma oportunidade de autopromoção.
  7. Tente não se repetir
    É condescendente e é bem chato. E nós tendemos a nos repetir bastante. Especialmente em conversas de trabalho ou conversas com nossos filhos. Nós temos uma ideia que queremos passa-la (às vezes, goela a baixo) e então ficamos repetindo-a e/ou reformulando-a… Não faça isso.
  8. Não se perca em detalhes
    Francamente, as pessoas não se importam com os anos, as datas, os nomes…. Todos esses detalhes que você luta para buscar na memória…. Ninguém liga! Sabe sobre o que os outros se importam? Você! Eles se interessam por como você é e por sobre o que vocês têm em comum. Por isso, esqueça os detalhes. Deixe-os fora da conversa.
  9. Escute (este é o mais importante!)
    Eu não consigo lhe dizer quantas pessoas relevantes já disseram que escutar é a mais importante habilidade que você tem a desenvolver. Buda disse: ‘Se sua boca está aberta, você não está aprendendo’. Calvin Coolidge, ex-presidente dos EUA, disse: ‘Ninguém jamais foi despedido por escutar demais’.
    Por que não nos escutamos uns aos outros? Primeiro, porque preferimos falar. Quando eu falo, eu estou no controle. Eu não tenho que escutar nada que não me interessa. Eu sou o centro das atenções. Eu posso alimentar meu ego.
    Mas tem outra razão. Ao escutar, nós nos distraímos. Uma pessoa em média fala cerca de 225 palavras por minuto. Mas nós somos capazes de ouvir cerca de 500 palavras por minuto. Assim nossas mentes vão preenchendo o espaço entre as 500 e as 225 palavras. E, veja, eu sei! É preciso esforço e energia para realmente prestar atenção a alguém.
    Mas se você não conseguir fazer isso você não estará em uma conversa. Vocês serão apenas duas pessoas bradando sentenças que mal se relacionam em um mesmo lugar. Vocês têm que escutar uns aos outros.
    Stephen Covey (autor de ‘Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes’) disse muito eloquentemente: ‘Muitos de nós não escutamos com a intenção de entender, nós escutamos com a intenção de fazer uma réplica’.
  10. Seja sucinto, seja breve
    ‘Uma boa conversa é como uma mini-saia: curta o suficiente para manter o interesse, comprida o suficiente para cobrir o assunto’ – irmã da palestrante

Tudo isso se resume a um ponto fundamental, que é esse:

Interesse-se pelo outro.

Eu cresci com um avô que era muito famoso. E na minha casa havia uma espécie de ritual. Pessoas vinham para conversar com meus avós e, logo depois que iam embora, minha mãe vinha e dizia: ‘Você sabe quem era aquela pessoa? ’, ‘Aquela foi a Miss América a uns anos atrás! ’, ‘Aquele era o prefeito de Sacramento! ’, ‘Aquele ganhou um prêmio Pulitzer! ’, ‘Aquele era um dançarino de balé russo! ’. E eu acabei crescendo acreditando que todo mundo tinha algo incrível escondido. Honestamente, acho que isso me faz ser uma melhor entrevistadora. Eu fico calada o mais que posso, eu fico com minha mente aberta e eu sempre estou preparada para me surpreender.

E eu nunca me desaponto.

Faça a mesma coisa! Saia. Fale com as pessoas. Escute-as. E, o mais importante, esteja preparado para ser surpreendido.

Obrigado. ”

 

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