Como colocar uma conversa no caminho certo

3 de julho, 2016 - POR Andre Moura

Digamos que você está numa discussão. Essa discussão já está rolando faz um bom tempo. Você sente emoções que não identifica. Provavelmente raiva, provavelmente frustração. Tem momentos em que tem uma sensação de vitória, outros em que sente uma certa vergonha porque parece que está mesmo errado. Mas você não dá o braço a torcer e nem desiste. Muito menos a pessoa com quem você está discutindo.

De repente você para e se dá conta de que o assunto atual da discussão não tem nada a ver com o que você queria no começo da conversa.

Esse cenário muitas vezes acontece quando uma conversa difícil cai no seu colo e você não está preparado. Ou quando você traz uma conversa que deixa o outro na defensiva. E ainda pode ser que você tenha se sentido agredido, ofendido, ou alguma coisa parecida, e isso o fez provocar um desvio para esse lugar quente como o caldeirão do inferno.

É, meu amigo, minha amiga, situação complicada. Mas se você se deu conta de que está numa conversa em que não queria estar, já é alguma coisa. Dar-se conta não é uma tarefa simples. Depende de estar atento, de aprender a reconhecer suas emoções, de refletir sobre os padrões da sua história e sobre as conversas que não deram certo. Depende inclusive de reconhecer que certas conversas do passado não deram certo.

É por isso que eu digo que se você reconheceu, aleluia, talvez o passo mais difícil já foi. Mas e agora?

Eu tenho uma sugestão. É algo que me ajuda (e espero que ajude você também) sempre que me dou conta de que estou nesse lugar ruim dentro de uma conversa.

Encontrando a motivação original da conversa

A minha sugestão é que você pare e faça a seguinte pergunta: “Por que estamos tendo essa discussão?” É importante ter o cuidado de fazer essa pergunta com a intenção genuína de buscar a razão original (e de fato produtiva) da conversa. Você pergunta por quê e isso vai ajudá-los a encontrar o para quê.

Se sua intenção estiver mesmo no lugar certo, você vai sentir uma mudança de energia, pelo menos internamente. Ainda assim, sua pergunta pode soar como uma provocação para o outro. “Por quê?!?” É capaz que ele se defenda. Não importa. Mesmo que a pergunta não sirva para o outro, ela vai servir para você. E aí, quando começar a buscar o que os trouxe até a discussão em que estão, é possível que o outro perceba que você não está mais querendo brigar e passe a colaborar.

Mas como perguntar “por quê?” ajuda a encontrar o para quê da conversa? Ao fazer a pergunta, você dá início a uma investigação:  em que momento a conversa desviou de assunto, mudou seu rumo? Essa investigação deve levá-los de volta ao primeiro desvio que aconteceu (é possível ter ocorrido mais de um). Recordando esse ponto, ficará mais fácil lembrar-se do que você estava querendo ali – caso fosse você quem queria alguma coisa.  Ou vai ser possível perguntar ao outro o que ele estava buscando – caso fosse ele quem queria alguma coisa.

É importante que você entenda que está escolhendo mudar a energia da conversa, abandonar a disputa. Sendo assim, mesmo que perceba que há coisas ainda para falar, argumentos sobre uma questão ou outra, pingos para colocar em is que ficaram no caminho, mesmo assim aceite que não é hora de lidar com os laços que a discussão abriu e ficaram abertos. Lembre-se de que está fazendo uma escolha de voltar à conversa original.

É claro, isso não vai dar certo todas as vezes. A situação pode ter ficado tão quente que o outro não consegue abandonar a disputa. Se for esse o caso, eu imagino que o melhor a fazer é simplesmente dizer que a conversa não está legal, assumir sua parte da responsabilidade por ter deixado isso acontecer e pedir um tempo. Talvez a única solução seja deixar as coisas esfriarem.

Os motivos que valem a pena

A ideia de investigar onde as coisas saíram dos trilhos em uma conversa pode funcionar muito bem. Mas ela depende de que a motivação original da conversa tenha sido construtiva e genuína.

Muitas vezes a conversa não caminha bem, não porque ela se desviou do rumo, mas porque havia problemas com sua motivação original. Vale a pena refletir se não estamos chamando para nós conversas que geram polêmica, que podem gerar conflito, que podem gerar até afastamento.

Há um trabalho que foi desenvolvido pelo pessoal do Projeto de Negociação de Harvard, que descreve objetivos que realmente valem a pena em uma conversa pessoal. Acho que é uma referência muito rica e vou trazer um resumo aqui para vocês.

Eles concluíram que existem apenas três objetivos que levam a boas conversas pessoais:

  • Aprender sobre a história do outro
    Não para culpar, não para provar algum ponto. Para aprender mesmo. Conhecer melhor a história do outro, conhecer melhor como ele pensa, o que sente e do que precisa, pode ser importante para ampliar suas possibilidades, para gerar reflexões e, no mínimo, para melhorar sua conexão com ele.
  • Expressar seus sentimentos e necessidades
    Para que o outro tenha a chance de fazer alguma coisa a partir disso. E para você ter certeza de que o outro sabe o que você sente e precisa. Essa certeza pode liberar algumas amarras e abrir novas possiblidades.
  • Construir alguma coisa com o outro
    Ou seja, efetivamente resolver alguma coisa. Pode ser a construção de algo concreto ou mesmo de um jeito novo de atuar ou de pensar. Uma conversa com esse objetivo pode se constituir de trocas de ideias, de histórias, de sentimentos e necessidades. E deve caminhar para que sejam feitos pedidos ou ofertas. Que podem ser negados, negociados, postergados. Ou aceitos, gerando compromissos.
Você pode encontrar mais detalhes sobre esse trabalho no livro Conversas Difíceis

Se você tem algo pessoal a tratar com outra pessoa e sua motivação para conversar não se encaixa em nenhum dos três casos acima, repense. Provavelmente a situação com a qual você está querendo lidar não é fácil. Pode ser o caso de refletir sobre o assunto até que seu coração esteja no lugar certo e sua cabeça também. Isso pode fazer com que o foco mude. E, eventualmente, pode fazê-lo desistir de conversar para buscar uma outra solução para seu problema. Uma que seja mais adequada.

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