Não discuta com uma armadura

29 de maio, 2016 - POR Andre Moura

Você já foi capturado por uma discussão que não tinha a ver com o objetivo original da conversa?

Ana Bela decidiu que não continuaria com as sessões de shiatsu. Ela não sentia que o processo estava ajudando mais. Em parte, porque seu terapeuta havia desmarcado alguns compromissos em cima da hora nas últimas semanas. E, apesar de não ter gostado das desmarcações, não tinha sentido falta do tratamento. Iria pedir um ressarcimento das sessões que não puderam ser remarcadas e encerrar o processo.

Ia ser uma conversa delicada. Nunca é fácil dizer que uma relação está terminando, qualquer que seja.

Por isso Ana Bela começou tateando um pouco, tentando explicar o que estava sentindo. Mas quando mencionou os compromissos desmarcados, seu terapeuta a interrompeu:

– Quantas vezes você já não desmarcou em cima da hora comigo!?!

Ela já havia desmarcado sim, mas nunca exatamente em cima da hora. Talvez uma vez há mais de um ano. Mas as suas desmarcações haviam sido muito mais esporádicas.

Ela começou a se defender. E seu terapeuta já escalou:

– Você não sabe o que está se passando comigo! Quem é você para me criticar assim!?

Ana Bela ficou assustada. Tentou colocar panos quentes. Mas a conversa virou uma discussão, não teve jeito.

Enfim, conseguiu dizer o que queria, mas só depois de um bom tempo de uma conversa estressante. Saiu de lá sem ter certeza de que foi justa, um pouco indignada pelas acusações que recebeu, e completamente bagunçada emocionalmente. Não preciso dizer que saiu sem conseguir o ressarcimento pelos atendimentos desmarcados. Até esqueceu de falar disso.

Conversas assim acontecem de vez em quando. E tem vezes que nem são surpresas: já sabemos que se formos falar de um determinado assunto com uma determinada pessoa, corremos um risco grande de cairmos nesse redemoinho. Não é à toa que costumamos evitar tais conversas.

Mas talvez existam jeitos de melhorar isso…

Desconstruindo a confusão

Vamos entender melhor o que aconteceu com Ana Bela.

Por mais cuidadosa que Ana fosse ao introduzir o assunto, ao falar das sessões desmarcadas ela toca em um lugar sensível. E o terapeuta se sente acusado.

Recebendo a acusação como um ataque, ele contra-ataca com uma pergunta, que na verdade é outra acusação! Algo do tipo: “Você também já fez o que eu fiz! Você não tem moral para me criticar! ”.

Um ataque pode provocar dois tipos de reações (a princípio). Defender-se (“Eu não fiz não!!!”). Ou contra-atacar (“Eu posso ter feito isso, mas você é muito pior porque faz tal e tal”). Reagir de um jeito ou de outro significa aceitar à provocação para entrar em um jogo. E quando você é capturado pelo jogo, meu amigo, minha amiga, é fácil esquecer seu objetivo original na conversa. Seu objetivo passa a ser vencer a disputa. Normalmente, nada disso é consciente. Mas acontece de qualquer jeito.

Não é de se espantar que conversas assim terminem com uma sensação de que todo mundo perdeu. Mesmo que você vença a disputa.

Mas que alternativa ela tinha?

Primeiramente, não reagir de pronto! Pode parecer estranho, mas essa é a alternativa que evita o jogo.

E eu sei, é mais fácil falar do que fazer. Eu entendo que não é algo que a gente pode esperar conseguir de um dia para a noite. Mas acredito que dá para treinar. Treinar tanto o reconhecimento de que um ataque está acontecendo, como uma reação pacífica e potente.

Vou explicar o que quero dizer com treinar. O treino pode ser feito sozinho e em silêncio. Agora mesmo, se quiser! Funciona assim…

Preparando-se para não brigar

Lembre-se de uma situação em que recebeu uma reação agressiva. Ou imagine uma situação em que isso poderia acontecer. Perceba na situação o momento em que você se desequilibra. O momento logo antes de você responder. Perceba o que você sente ou sentiu. Provavelmente algum tipo de raiva, de medo, de ansiedade. Tente imaginar, tente lembrar, e perceba como é a sua sensação interna. Registre essa sensação. Esse é um sinal que vai ajudá-lo a reconhecer quando um ataque estiver acontecendo.

Imagine-se, então, logo após o ataque. Imagine-se dando um passo para trás e ficando em silêncio por uns instantes, só observando. Poucos instantes já ajudam.

Perceba o impacto que isso tem em você. Preste atenção ao que sente. Perceba como não reagir ajuda o sentimento a se dissipar.

Agora considere que o ataque do outro é uma armadura. Imagine que há uma pessoa assustada, perdida, magoada ou algo do tipo por trás dessa máscara. Tente enxergar quem está ali escondido em sua retórica agressiva. Entenda que o outro não é a figura assustadora que o ataca – mesmo porque, um ataque gratuito é sempre uma defesa. Enxergue que ele é esse ser mais frágil e vulnerável, por quem é possível até se ter empatia. Olhar por trás da armadura é muito potente e reagir com silêncio o ajuda a construir essa reflexão.

Agora perceba como o seu silêncio impacta o outro.

Primeiro, o silêncio pode fazer com que ele desista do jogo. É. Sim. Pode! Porque quem está fazendo algo de que não se orgulha tende a ficar desconfortável com o silêncio e então se retratar. No mínimo, se ele não se retratar, ele pode pelo menos acalmar.

Provavelmente isso não funciona sempre. O silêncio também pode fazer o contrário, pode fazer com que o outro se exalte ainda mais.

Mas, se você usou seu tempo para olhar por trás da armadura que o outro vestiu, sua paz de espírito já vai ter um bom suporte. E uma hora eventualmente ele acabará desistindo de propor um jogo que você consistentemente se recusa a jogar.

Tirando a armadura de quem ataca você

No caso de Ana Bela, ela poderia ter enxergado em seu terapeuta alguém ferido em seu orgulho. Ou alguém muito preocupado com outros problemas. Talvez problemas financeiros, talvez problemas de família, ou algo assim.

Ao ver isso, não teria mais sentido para ela se defender da acusação que ele lhe fazia. Não seria uma conversa que ajudaria ninguém. Ficaria claro que a acusação era apenas uma estratégia para não mostrar a fragilidade. E ficaria mais fácil não reagir.

Só isso?!

Agora, tudo bem, tudo bem… Não vou negar que é possível que o silêncio não seja suficiente, principalmente se o outro continuar atacando. Acho que vale a pena falar mais sobre isso e eu tenho algumas ideias para compartilhar. Mas acho que podemos continuar na semana que vem, no próximo post. Que tal?

Espero encontrá-lo lá.

Um abraço e boa semana.

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