Você já ouvir falar em mediação?

22 de abril, 2016 - POR Andre Moura

Aqui, neste espaço, nós falamos sobre conversas difíceis e importantes, não é? Pois é. E você deve reconhecer que algumas vezes o assunto dessas conversas é tão difícil que se evita lidar com ele. Você sabe do que eu estou falando, não? Pois então, eu já vi gente estagnada por muito tempo. Às vezes por anos. E isso acontece em grande parte porque  não se enxerga o caminho de como lidar com a situação.

Este blog procura oferecer alternativas a isso. E uma possibilidade é você se desenvolver e adquirir ferramentas (gosto de pensar que a gente ajuda com isso). Outra possibilidade é você ir buscar ajuda. Existem várias opções, mas quero falar de uma que começa a ganhar mais espaço. É um processo que se chama Mediação.

A Mediação é uma forma de solução de conflitos na qual uma terceira pessoa, neutra e imparcial, facilita o diálogo entre as partes, para que elas construam, com autonomia e solidariedade, a melhor solução para o problema (essa frase é ótima e foi retirada daqui). O Mediador é um FACILITADOR DA CONVERSA e os envolvidos são colocados como protagonistas do processo. Ou seja, OS INDIVÍDUOS É QUEM SÃO DE FATO RESPONSÁVEIS por resolver o que quer que seja.

Isso é muito importante porque é isso que provoca TRANFORMAÇÕES reais e frutíferas.

Em via de regra, a Mediação é utilizada em conflitos ou em CONVERSAS DIFÍCEIS onde as partes devem manter uma relação continuada. Ou seja, elas vão continuar convivendo.

Porque nesses casos? Porque a Mediação caminha no sentido de CURAR A RELAÇÃO. Seus desdobramentos não são impostos, ao contrário, geram movimentos voluntários de cada um dos envolvidos, movimentos que surgem desse processo de cura. Transformações reias e frutíferas :)

Comunicação e conexão

Vocês viram que eu falei em DIÁLOGO e em CONVERSAS. Pois é, Mediação tem muito a ver com COMUNICAÇÃO. Na maior parte das vezes, duas pessoas não conseguem se entender porque uma não consegue comunicar para a outra o seu ponto de vista. E não conseguir comunicar tem a ver tambem com não conseguir ouvir. Obviamente, essas dificuldades se relacionam à uma inundação de emoções que certas situações provocam e que deixam as pessoas, de fato, incapacitadas de se conectar com o outro.

Por isso, quando se pensa em Mediação, outra coisa que deveria vir à cabeça poderia ser CONEXÃO.

Vou contar uma breve história.

João e Manoel eram dois sócios. Vejam, esta não é uma piada de português, e obviamente este não são seus nomes verdadeiros, que foram trocados para preserva-los. Eles eram amigos antes de serem sócios, e juntos construíram uma empresa que era bem sucedida.

Nos últimos tempos eles vinham se distanciando. Ao ponto de Manoel estar pedindo para sair da sociedade. João, por sua vez, dizia que não se importava que ele saísse, mas as condições que Manoel impunha, ele não podia aceitar. E a situação estava de tal forma difícil, que os dois não podiam sequer sentar na mesma sala para conversar.

A Mediação começou então assim, cada um encontrando o Mediador individualmente. E em cada encontro, a raiva de um por outro permeava o tempo todo o discurso.

Um assunto em particular apareceu muitas vezes na fala de Manoel, e isso chamou a atenção do Mediador. Sempre que ele dizia que João não era o mesmo e que não era possivel confiar mais nele, Manoel falava de quando não fora convidado à sua festa de 50 anos. O Mediador pediu então para falar sobre isso com João, e Manoel, apesar de achar que isso não era um ponto particularmente relevante da questão, aceitou.

Quando João recebeu a história, quase pulou da cadeira! Para ele, era Manoel que tinha falhado, não comparecendo na festa. Fez questão de entrar no seu sistema de email e mostrar o convite enviado. O Mediador pediu para levar essa informação para a outra parte e João não se opôs, apenas achou que não era um ponto particularmente relevante da questão.

O que havia acontecido era que Manoel havia mudado de email e João não se dera conta. O convite para a festa, assim como outras comunicações importantes, haviam se perdido. Quando isso ficou entendido, algo mudou claramente no comportamento deles. Ambos deixaram de lado as expressões de raiva. Em poucas sessões acabaram conseguindo estar juntos na mesma sala, o que não acontecia havia tempos. A sociedade enfim não se desfez.

Expandindo o horizonte de possibilidades

Mediação - expanindo o horizonte

Comunicação e conexão são fundamentais, mas pode-se dizer que não basta.

Se tudo estiver claro e houver conexão, mas ainda assim os interesses forem conflitantes,  é fato que vai haver disputa.

Confesso que muitas vezes eu, atuando como mediador, enxerguei os dois lados, entendi cada um, e pensei: Puts, não tem saída!

Mas para minha surpresa, costuma ter! Isso tem a ver com um segundo momento da Mediação, que é onde ocorre uma EXPANSÃO.

Vou contar mais uma história.

Maria e Joana moravam no mesmo prédio. Maria tinha recebido no sorteio das vagas de garagem, uma que ficava perto do elevador, enquanto Joana não tinha ficado com vaga alguma e teria que estacionar seu carro do lado de fora do prédio. O problema era que Joana era mais velha e tinha uma deficiencia na perna que tornava muito sacrificante caminhar de fora do prédio até o hall de entrada.

Maria era jovem, a única de um prédio onde os moradores eram idosos, e poderia caminhar sem problemas. Joana então ofereceu pagar pela sua vaga e Maria se compadeceu da situação da vizinha. Só que ela estudava à noite e chegava sempre muito tarde em casa. Parando fora do prédio ela teria que andar por um trecho de rua escura e isso a deixava muito desconfortável. O valor do aluguel da vaga não pagava por sua segurança.

Assim, havia um impasse. Parecia haver apenas duas possibilidades: ou Joana ficava fora e tinha que se sacrificar para ir do carro para casa, ou Maria ficava fora, e corria riscos sempre que chegava de noite. Havia conexão e a comunicação estava clara. Uma entendia o ponto de vista da outra muito bem e até havia empatia. O que não havia era uma solução.

Mas será que não havia algo que se pudesse fazer além das possibilidades colocadas sobre a mesa?

Houve. Joana, a mais interessada em mudar a situação, foi quem fez o movimento para realizar uma ideia que surgiu na conversa das duas durante o processo de mediação. Ela convocou uma reunião de condomínio e os convenceu a instalar uma guarita e um poste de luz na rua. Joana se comprometeu a pagar a parte da Maria dessa despesa. E então Maria aceitou alugar sua vaga.

Ok, mas como funciona na prática?

A ideia pode parecer interessante. Mas ainda assim: como eu vou fazer para levar a pessoa com que eu estou brigando – e que muitas vezes está querendo evitar o assunto – para um processo onde vamos ter que conversar?

Eu sei que pode parecer difícil, por isso quis falar do caminho que acho que funciona melhor.

Você pode entrar em contato com um mediador e pedir para ele lhe ajudar a convidar a outra pessoa para o processo!

Vocês podem conversar para estabelecer uma estratégia. Ele pode ajudá-lo a fazer o convite. Inclusive, se vocês decidirem que é o melhor, ele mesmo pode falar com a outra parte. Disso tudo, é muito importante saber que o processo costuma apenas ser cobrado quando é iniciado. Isso significa que enquanto a outra parte não aceita entrar em Mediação, o mediador não cobra. Ou seja, não custa nada tentar. Literalmente.

Pode ser que a outra parte não aceite o convite. Isso acontece. Mas, ainda assim, um efeito colateral muito interessante se dá. Muitas vezes, só de conversar com um mediador e este trazer suas razões para querer conversar, o olhar do outro muda. E mesmo que o processo de mediação não se realize, talvez um primeiro passo tenha sido dado.

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