Entre o fogo e a luz

20 de março, 2016 - POR Andre Moura

Durante meses o samurai esteve atrás de um criminoso, para cumprir uma sentença de morte. O criminoso havia sido hábil em se esconder durante esse tempo. Mas enfim, o samurai teve notícias seguras de seu paradeiro.

Sem despertar qualquer suspeita, chegou disfarçado ao vilarejo onde o infame se escondia. Conversando com um e outro, soube que durante o dia ele não dava as caras, mas às noites era certo que gastava seu dinheiro em uma casa de prazeres que havia ali.

Naquela noite, como de costume, o malfeitor apareceu. Sentou-se em uma mesa e pediu uma bebida. E já se acomodava quando sua atenção foi capturada: um homem do outro lado do salão se pôs de pé afastando sua mesa e jogando no chão uma capa que o cobria. Era o samurai!

Surpreso, o criminoso sentiu um arrepio na espinha e um medo terrível transpareceu em seu rosto.

Calmamente, o samurai foi se aproximando com um olhar fixo. À distância de um passo, puxou a espada e preparou o golpe.

Mas o criminoso, ao perceber que não teria como escapar,  sentiu seu medo transformado em raiva!  E, com despeito, cuspiu no rosto de seu algoz.

O olhar do samurai foi tomado de fúria! Um fogo que pareceu esquentar o salão e fez todos segurarem a respiração. O tempo parou por uns instantes. Bufando, passou a mão no rosto. Então guardou a espada, virou-se e partiu.

Acreditando que o samurai havia deixado o vilarejo, o criminoso sentiu-se livre da pena. No dia seguinte, saiu à rua, despejando pelos cantos sua malícia. E estava distraído, quando sentiu um toque em seu ombro. Ao se virar, mal teve tempo de ver o que acontecia. Um violento golpe de espada o cortou ao meio.

O samurai limpou o sangue da arma com a mão. Guardou-a em sua cintura e se dirigiu ao cavalo, que era guardado por um rapaz. Ao lhe oferecer as rédeas, o rapaz timidamente perguntou:

– Desculpe, senhor, eu não entendo. Eu estava ontem na casa dos prazeres. E o senhor deixou o criminoso ir. Para hoje voltar e matá-lo! Por que não o matou ontem mesmo, senhor?

– Porque ontem, eu estava com raiva…

Dentro de nós existem monstros. Digo que todos temos os nossos. Quem não se lembra, com remorso, de já ter personificado um desses monstros em uma conversa? E as consequências nefastas de ir para briga, de mostrar ao outro seu lado sombrio, de atacar alguém sem dó. Sendo que, muitas vezes, se trata de alguém que se ama.

Por isso digo que uma das coisas que nos faz ter medo de ter certas conversas, são nossos próprios monstros. E enxergo que muitas das reflexões, histórias, ferramentas que trago aqui, têm a função de cuidar disso: de que os monstros não tomem conta.

Hoje quero trazer um olhar diferente sobre isso. Algo que não fale de como evitar, mas que indique como agir. Qual seria o modelo de ação a tomar? O oposto de ser tomado por uma força assim negativa?

E a resposta que eu dou a essa pergunta é: uma ação baseada no Amor!

Mas aí você poderia me perguntar: e, por acaso, o samurai agiu com Amor ao matar o criminoso?!

Do jeito que enxergo a história, eu diria que sim!

Uma vez recebi um verso de poema que guardei porque representa muito como eu vejo isso: “o Amor é um jeito de pisar no chão”. E uma ação amorosa pode ter diversas qualidades. Tais como carinho, consideração, respeito, cuidado, atenção. Mas também qualidades como velocidade, agressividade, destreza, força, precisão. E, acima de tudo, presença.

***

Vou pintar um cenário que pode explicar melhor como eu vejo.

Num armário alto da cozinha, que fica sobre a pia, a família guarda um frasco de veneno para ratos. Naquele dia o filho brinca com seus carrinhos ali perto, enquanto o pai trabalha na pia amassando uma massa de pão, que está quase pronta para ir ao forno. Antes de terminar ele sente uma vontade de ir ao banheiro. Como não parece que há qualquer perigo, apenas lava as mãos e vai, deixando o filho sozinho por poucos minutos.

Quando volta, para sua surpresa, o filho está em cima da pia, com o armário aberto e o frasco de veneno nas mãos, prestes a colocá-lo na boca.

Há três possibilidades de desfecho:

Possibilidade número 1. O pai é tomado de raiva porque o filho nunca se comporta. Como um raio, pega o frasco da mão dele. Coloca o menino no chão e olha em seus olhos – bufando. O filho faz um bico, assustado. Vendo que não vai receber suporte do pai, vira-se chorando e sobe as escadas em busca da mãe.

Possibilidade número 2. O pai é tomado pelo medo porque o filho corre risco! Como um raio, pega o frasco da mão dele. Coloca o menino no chão e olha em seus olhos – ofegante e com os olhos arregalados. O filho faz um bico assustado. E o pai o abraça com o coração acelerado, enquanto o filho chora.

Possibilidade número 3. O pai vê o que o filho está fazendo. Como um raio, pega o frasco da mão dele. Coloca o menino no chão e olha em seus olhos – sério mas tranquilo. O filho olha sem entender. O pai diz  mostrando o frasco “Não pode, isto é perigoso!” e espera. O filho entende. E vai brincar com seus carrinhos. O pai guarda o frasco no fundo e fecha a porta do armário.

 

No primeiro caso, o pai acha que o mudo é perigoso e seu filho também! Ele não sente confiança no comportamento dele.

No segundo caso, o pai acha que o mundo é perigoso, ponto! Ele não sente confiança que seu filho estará seguro.

No terceiro caso, o pai confia. Confia no filho e, principalmente, em si mesmo. Confiança – genuína, sem arrogância – é uma expressão de amor. O filho sente segurança inclusive porque o pai mostra que tem controle sobre o que é perigoso.

***

Ilustro assim o que quis dizer com “agir com Amor”.  E esse é o modelo de ação que quero deixar como inspiração.

Você enxerga agora o que eu vejo na história do samurai?

Tanto ela, como a história do pai e o filho, ambas falam do Amor, como eu enxergo. Um jeito de agir equilibrado, sereno e assertivo, independente de qual seja a ação que se deve tomar.

E ao mesmo tempo, as histórias falam dos monstros que carregamos. Particularmente na história do samurai, mostra-se a importância de trabalhar esses monstros antes de uma atitude qualquer. Para então se atingir a serenidade do Amor, que pode ser aplicado mesmo em um momento em que se deve agir com dureza.

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