Joãzinho, seu professor e um problema de comunicação

6 de março, 2016 - POR Andre Moura

Certo dia na escola, durante uma aula de História, o professor nota Joãozinho distraído, olhando pela janela. Decide averiguar se o menino está acompanhando a matéria:

– Então, Joãozinho, quem foi que descobriu o Brasil?

E Joãozinho responde:

– Não fui eu, não! Eu tô quietinho aqui no meu canto. Nem vem…

E o professor:

– É claro que não foi você, Joãozinho! Isso é resposta que se dê ao seu mestre? Onde já se viu? Já vi que você não tem estudado, não é, menino? Desse jeito, o que o Brasil pode esperar de você?!

– Ele que não espere nada. Eu não prometi nada para ele! Que coisa é essa, um marmanjão desses querendo explorar uma criança, assim, que nem eu…

O professor pensa em responder, mas decide que a conversa é trabalhosa demais e desiste. Volta então à sua aula.

Dias depois, vai fazer uma visita ao pai de Joãozinho, para falar de suas preocupações. Seu Antônio, um sitiante daqueles bem brabos, quando vê o homem se aproximando, já imagina que seu filho tem aprontado alguma. O professor cumprimenta:

– Boa tarde, com licença.

– Que que foi que o Joãozinho fez?

– Não, não é nada grave não, seu Antônio. Não precisa ficar nervoso. É só que eu estou preocupado com seu filho. Ele não tem estudado a matéria direito. Para o senhor ver: outro dia eu perguntei quem foi que descobriu o Brasil. Sabe o que ele me respondeu? Que não foi ele…

– Ah, pois o senhor aperta ele, que às vezes foi ele mesmo e ele não quer falar…

Este “causo” – e mais outros – você pode ver contado pelo Rolando Boldrin aqui neste link

A história é uma anedota que ilustra muito bem o que acontece quando um não entende o outro.

Comunicar-se bem, ou seja, fazer-se entender e entender o que o outro quer dizer, é fundamental para que uma conversa produza algo positivo.

Quando isso não acontece, como na história, fica uma sensação de frustração. Você já sentiu isso em conversas da sua vida? Eu certamente já. E muita gente tem estudado e escrito sobre isso. Como o pessoal do Projeto de Negociação de Harvard, os pesquisadores de Comunicação Não-Violenta, e as diversas linhas de estudo sobre Mediação de Conflitos.

Quero então trazer algumas reflexões sobre o que tenho lido dessas fontes e experimentado na minha vida.

E farei isso a partir de nosso intrépido “causo”.

Comunicação e escuta

A primeira coisa que salta da história é a inacreditável incapacidade de compreensão, tanto do menino, quanto do pai. É tão inacreditável que torna a narrativa muito engraçada.

Mas será que se trata apenas de incapacidade? Pode ser, mas pode ser outra coisa.

Quando penso em boa comunicação, a primeira coisa que me vem – o elemento mais importante no meu ponto de vista – é ESCUTA. Por se tratar da parte passiva da comunicação, pode não parecer tão importante à primeira vista. Mas a comunicação só acontece mesmo quando o que é enviado é de fato recebido. Ou seja, a mensagem é escutada e compreendida.

Escutar de verdade depende de muitas coisas. Mas quero ressaltar uma em especial: a prática de ouvir até o fim o que o outro tem a dizer, sem concordar ou discordar – ou mesmo se apegar a quaisquer conclusões – no meio do caminho.

Exemplos de como fazer o contrário disso estão estampados na história. Vamos começar com Joãozinho. Ele, antes de captar o conteúdo da pergunta do professor, certamente já tinha decido que se tratava de uma bronca. Suas respostas vieram a partir dessa decisão, e não de uma escuta atenta à pergunta.

Com seu Antônio foi parecido. Antes mesmo do professor começar, seu Antônio já “sabia” que o assunto era alguma malcriação de Joãozinho. Assim é compreensível que não tenha dado muita bola ao conteúdo da mensagem do professor.

Como eu já disse, a história é uma anedota. Corre-se o risco de se pensar, a partir dos exemplos caricatos, que a tarefa de ouvir até o fim é fácil. Não é. Vamos lá, pense aí. Quantas vezes você se lembra, durante uma conversa, de já estar pensando em algo para dizer mesmo antes do outro terminar? Ou ainda de interromper a fala do outro para dizer o que pensa? Isso é você não escutando até o fim.

E isso é só uma parte. Para uma boa escuta é necessário saber dar espaço ao outro. Uma boa escuta demanda presença de espírito e atenção.  Implica ouvir além das palavras, enxergar o que está por trás do que está sendo dito. Implica estar atento ao corpo e às expressões de emoção do outro.

Além de tudo isso, uma escuta ativa pode incluir a prática de verificar o entendimento do que está sendo dito. Seiti Arata fala sobre isso neste vídeo aqui, através de um método muito útil que ele chama de “voltar a fita”.

Veja que as vantagens de desenvolver uma boa escuta vão além de garantir uma melhor compreensão sobre o que está sendo dito. Possibilita que o outro se comunique mais tranquilamente. E isso melhora a qualidade da mensagem que ele passa.

Considerando o contexto de quem recebe a mensagem

É claro que o professor, coitado, não parece ter muita responsabilidade na história. Reconheço que sua situação não é fácil. Mas como acho enriquecedor olhar uma situação por todos os ângulos, quis trazer um questionamento: o professor poderia ter feito algo diferente do que fez para ser melhor compreendido?

Responder essa pergunta é um exercício que pode ilustrar um conceito importante: a importância de levar em conta o contexto do outro.

Proponho fazer essa reflexão a partir da conversa com seu Antônio. Quem é ele? Um sitiante, um homem muito simples, que nunca foi à escola, não sabe ler e não possui sequer uma TV ou um rádio. Acorda com o galo e vai dormir logo depois que o sol se põe. Sua casa é simples, chão de terra, fogão de barro. Ter uma perspectiva histórica das coisas… pfff… esquece.

Seu Antônio se importa com disciplina, com respeito à autoridade. Importa-se com conhecimento, mas só tem do tipo prático, que dá para usar nas tarefas do dia-a-dia.

Para ele, o professor é um homem de cultura, importante. Uma pessoa quem prontamente atenderia se lhe pedisse algo. Mas a única coisa que o caipira sabe fazer em relação à educação do filho é dar umas surras de vez em quando. É difícil enxergar outro motivo pelo qual o professor o procuraria.

Provavelmente, ao escutar o professor, o que passa pela sua cabeça é algo assim:

“Sei lá de que o professor está falando! Mas se veio falar comigo deve ser para colocar Joãozinho no lugar. E se esse menino está negando, deve ser porque tem culpa…”

Pensando nisso tudo, talvez o professor tenha se adiantado no assunto. Talvez a conversa devesse passar antes pela importância do estudo e das coisas que se aprende na escola. Poderia esclarecer o que o menino estaria perdendo ao não acompanhar as matérias. E talvez falar sobre o que um pai pode fazer para ajudar.

Sem antes entender isso, fica difícil para seu Antônio ser empático ao problema que o professor traz, quando fala sobre a falta de dedicação de Joãozinho nas aulas.

Penso que essa reflexão pode ser uma inspiração para nossas conversas. Um exemplo sobre a importância de levar em conta o contexto do outro. É muito útil sempre lembrar que o universo do outro é diferente. Que seus filtros mentais, suas crenças, seus gatilhos emocionais, seus recursos, seu linguajar, são todos  diferentes.

Adaptar a mensagem ao contexto do outro vai aumentar significativamente as chances de que ele compreenda o que você tem a dizer. E isso pode levar a uma conversa mais significativa e que flua melhor.

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