Conflitos: inspirações que o olhar do outro pode trazer

27 de fevereiro, 2016 - POR Andre Moura

Eu gosto muito de histórias de advogados. A busca pela justiça talvez seja o que me move. E acho que move muita gente, por isso tantos filmes sobre o assunto são feitos.

Na maioria das vezes, a jornada do herói se dá na busca de trazer à tona a Verdade. Trazer à superfície o que está escondido. Nas histórias, muitas vezes isso acontece através de fatos que vão se revelando. Ou de fatos que já se conhece e sabe-se que devem ser revelados.

Mas algumas vezes é diferente. Trata-se apenas de uma percepção diferente, que não se tinha antes, um ângulo pelo qual não se olhava. É um novo olhar que revela a tal Verdade.

“Tempo de Matar” (A Time to Kill) é um filme assim. Se você não viu, eu recomendo. Bom, eu gosto de filmes de advogados, talvez eu seja suspeito. De qualquer forma vou contar a história em linhas gerais.

(Se você não assistiu ao filme e ainda quiser assisti-lo, talvez prefira não ler os próximos dois parágrafos)

Uma menina negra é raptada por dois homens brancos, que a violentam até quase a morte. O pai, um homem negro, trabalhador honesto e conhecido na cidade, quando descobre o que aconteceu, vai ao encontro dos dois homens e os mata. Um advogado é chamado para fazer a defesa e ele passa o filme todo tentando construir seu caso. No fim, o que ele apresenta deixa pouco espaço para dúvidas sobre o que aconteceu, mas a questão ainda é subjetiva. Estava o pai da menina em um estado psicológico e emocional que tirasse de suas mãos a responsabilidade pela morte dos dois homens?

Com essa questão no ar o advogado vai fazer seu discurso de encerramento. O júri é público e composto na maioria por homens e mulheres brancos. Então ele descreve em detalhes o que se passou. Como a menina foi abordada, como foi ofendida, como devia estar assustada, como foi abusada, como foi agredida até desfalecer e continuou sendo agredida depois. O discurso é emocionante e o júri escuta de olhos fechados, a pedido do advogado. Apesar disso, a história já é conhecida. Será que eles estão sendo realmente tocados pelo argumento? Essa dúvida é um bloco de concreto no meio da sala. Mas então o advogado termina com uma frase surpreendente: “Imaginem agora que a menina é branca!”. E os jurados abrem os olhos arregalados, tomados por uma inesperada emoção.

Enxergar através dos olhos do outro é muitas vezes difícil por dois motivos.

Orgulho é um. Muitas vezes estamos tão comprometidos com a “nossa verdade” que abrir os olhos para a “verdade do outro” pode significar assumir publicamente enganos. O que não desejamos fazer.

O segundo motivo é um pouco mais profundo. Há vezes em que se colocar no lugar do outro implica sentir suas dores. Dependendo do tamanho da dor, é mais confortável – ou menos ameaçador – desacreditar sua história.

Pois é. Enxergar através dos olhos do outro… pode sim ser difícil.

Mas fazê-lo amplia a sua percepção sobre o que está acontecendo. E é essa mudança de perspectiva que, muitas vezes, abre o caminho para que as coisas se resolvam.

“E quando estiveres perto, eu arrancarei os seus olhos e os colocarei no lugar dos meus. E tu arrancaras os meus olhos e os colocara no lugar dos teus. Então, eu te olharei com teus olhos e tu me olharas com os meus.”

Jacob Levy Moreno
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