São tantas emoções…

21 de fevereiro, 2016 - POR Andre Moura

Experimentar a vida de forma plena e profunda envolve sentir emoções. Há quem diga que é o que dá sentido à vida. Eu não sei. O que sei é que emoções positivas nos fazem bem e só ajudam nossas relações. Alegria, amor, surpresa por uma coisa boa. O problema é quando as emoções não são tão positivas assim.

É sobre como lidar com essas emoções difíceis que vou escrever hoje.

Emoções que surgem em conversas difíceis

Emoções acontecem. Principalmente em conversas difíceis, onde se abordam conflitos ou se deseja negociar algo que pode provocar resistência. E as emoções acontecem mesmo que você não deseje ser importunado por elas.

Talvez você não queira que elas atrapalhem, então você tenta reprimi-las. Normal. Mas reprimir uma emoção pode não funcionar muito bem…

Ao experimentarmos certas emoções ganhamos super-poderes… Tá, tá, não SUUUPER poderes, mas poderes úteis. Por exemplo, a raiva nos dá velocidade de reação e agressividade. A tristeza* nos abre o coração permitindo a conexão com os outros. O medo nos deixa alerta e amplia nossos sentidos.

(*) A tristeza quando expressada tem esse poder de nos abrir para a conexão. A tristeza escondida não funciona. Isso vale para todas as emoções, mas senti uma necessidade especial de falar da tristeza.

Tratam-se de forças positivas que estão ligadas e são despertadas por emoções (para saber mais, veja Inteligência Emocional de Daniel Goleman).

Quando você reprime uma emoção, é provável que a força positiva que você precisa não se torne disponível. E aí, algo inesperado – e provavelmente indesejado – acontece: outra emoção surge. Pois é, uma emoção em cima da outra. Já viu a bagunça…

Mas, claro, existe um motivo genuíno para a repressão da emoção: o desejo de não ser TOMADO por ela.

Você já não se viu, quando tomado pela raiva, fazer coisas que preferia não ter feito? Ou pelo medo, deixar de fazer coisas que gostaria de ter feito? Ou completamente paralisado pela tristeza?

A raiva, particularmente, tem um papel importante nos contextos de conflito e negociação.

Lembre aí, de uma situação de conflito sua. Viu?! Tenho certeza que você se lembra de ter sentido raiva.

E raiva é fogo porque tem um efeito cascata. A sua raiva faz você atacar o outro. Isso provoca raiva nele, que por sua vez o ataca de volta. Esse ataque realimenta sua raiva inicial… E assim por diante.

Veja que o embate emocional normalmente não é o cerne do conflito que se deseja resolver. Mas muitas vezes, pelo jeito como as coisas se desenrolam, passa a ser um problema maior que o problema original. E isso pode eliminar completamente suas possibilidades de solução.

Cuidando da própria emoção

A pergunta que fica então é: como conviver com a emoção (e não a reprimir) sem ser completamente tomado por ela? Essa pergunta não pode ser respondida apenas com teoria. Acredito que demanda prática. Muuuuita prática :)

Mas acho que posso trazer duas ideias para ajudar, pensando no contexto de um conflito ou de uma negociação de nosso dia-a-dia:

  • Trabalhe autoconhecimento e desenvolva um repertório de ações.
    Antes de qualquer conversa importante*, investigue o que você sente. Tente antever e entender o que o outro faz que pode provocar emoções muito fortes. Pense em como seria sua reação automática. Reflita sobre os resultados prejudiciais que essa reação poderia gerar. Imagine alternativas a essa reação automática que gerariam melhores resultados. E dessa forma vá construindo um novo repertório de ações.

(*) Fazer isso pensando em conversas passadas também pode proporcionar aprendizados muito ricos. Se for uma conversa que acabou de acontecer, mais ainda.

  • Durante a conversa, antes de reagir, respire.
    Respirar permite que você ganhe tempo, o que ajuda a acalmar qualquer emoção que venha. Ajuda a acessar o repertório de recursos que você criou previamente. E possibilita que você não seja completamente tomado pela emoção.

Lidando com o que vem do outro

Agora, e se o outro for tomado por uma emoção, o que fazer? Isso pode muito bem acontecer, até de uma forma inesperada. Do projeto de negociação de Harvard, trago dois princípios de conduta muito úteis:

  • Se a emoção do outro vier, deixe-o desabafar.
    Isso vale para qualquer emoção. Dê espaço, não reaja. Respire e entenda que é a emoção do outro falando (e não seu bom senso).
    Se não receber mais combustível, o fogo se queima até apagar.
  • Reconheça as emoções.
    Mesmo que elas não sejam expressas de uma forma direta ou clara. “Reconheço que isso provoca em você emoções fortes” é uma boa frase, que não rotula a emoção mas a reconhece. Evitar o julgamento da emoção – por exemplo, chama-la de raiva, de angústia, de frustração, etc. – ajuda a que o outro não se defenda.
    Por outro lado, em certos casos, especificar a emoção pode ser mais poderoso. Se sentir que deve fazer isso, faça e confira. “Reconheço que você está magoado. É isso mesmo, não?”. Se ele disser que não, deixe-o definir sua emoção como preferir e use o rótulo que ele escolheu dali para frente.
    Reconhecer uma emoção garante ao outro que a expressão dessa emoção foi percebida e qualificada. Isso o ajuda a se desapegar dela.

Pisando em terreno minado

O projeto de Harvard faz ainda menção a duas áreas que têm o potencial de provocar emoções negativas no outro:

  • Preocupações fundamentais (core concerns). Segundo Harvard, é algo que todos temos. Elas são 5: autonomia, pertecimento, apreciação, papel e status.
    Exemplos: se você deseja impor a seu filho que ele não saia mais à noite (autonomia) saiba que isso pode gerar problemas; se sua argumentação ao falar com um policial envolve críticas à polícia (pertencimento), espere por uma reação complicada; se você diz para sua empregada que não se importa que ela vá embora (apreciação), talvez ela vá mesmo; se você é diretor de um clube de futebol e começa a escalar o time sem falar com o treinador (papel), saiba que ele não vai ficar contente; se seu companheiro(a) fala para seu filho que não adianta espernear e você mesmo assim compra o brinquedo (status), a chance é grande de ter discussão.
  • A identidade do outro. Ou seja, como o outro se enxerga, sua autoimagem.
    Exemplos: se a pessoa se acha um ótimo profissional, é delicado menosprezar suas capacidades técnicas; se a pessoa se julga uma mãe exemplar, seria muito arriscado criticar a educação de seu filho; se um homem se vê como corajoso, seria difícil para ele assumir que deixou de agir por medo.
    Entende?

Procure não atacar esses pontos. E se tiver que atacar, pelo menos saiba que irá provocar emoções, que isso é natural e que você terá que lidar com isso.

Este post faz parte da série sobre a Negociação Baseada em Princípios, metodologia desenvolvida em Harvard no começo dos anos 80. Você pode acessar o post de abertura da série aqui. O primeiro postulado dessa metodologia fala sobre “separar as pessoas do problema”. E lidar com as emoções é uma das coisas que se pode fazer para isso. “O que significa esse negócio de separar as pessoas do problema?” – você me pergunta? Se quiser mesmo saber, é só clicar aqui.

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