O gato que subiu no telhado

17 de janeiro, 2016 - POR Andre Moura

Joaquim veio morar no Brasil.  E Manoel, seu irmão, ficou em Portugal tomando conta da casa da família.

Certo dia, Joaquim recebe uma carta de Manoel, como era de costume. Mas o conteúdo é uma surpresa daquelas:

“Joaquim, seu gato morreu.”

Joaquim quase tem um ataque dos nervos, recebendo a notícia como que veio, assim de supetão. Depois de se recuperar e chorar alguns dias a morte do animal querido, resolve responder:

“Manoel, onde já se viu dar uma notícia assim. Tu tens é que preparar o terreno, falar com jeito, dar a notícia aos poucos. Primeiro poderias ter escrito: ‘Viste, Joaquim, tua gata subiu no telhado!’. Depois poderias dizer: ‘Ah, Joaquim, tua gata desequilibrou e caiu.’. Em seguida: ‘Joaquim, ela está no hospital e corre perigo de vida!’. Por fim então que poderias dar a notícia fatal. Entendeste, parvalhão!”

Umas semanas se passam sem resposta. Até que um dia chega a esperada carta de Manoel. Seu conteúdo é bem sucinto:

“Joaquim, mamãe subiu no telhado!”

***

Essa é uma anedota clássica que se tornou referência sobre preparar o terreno de um assunto delicado.

Preparar o terreno pode ser muito útil para evitar uma reação exagerada por parte de quem recebe a mensagem. Nós sabemos como uma reação exagerada pode escalar e virar uma confusão, principalmente quando se trata de uma reação agressiva, não é?

E mesmo que o outro não seja propenso a reações exageradas, preparar o terreno sempre é uma cortesia com a pessoa que está ouvindo. Algo que a ajuda a se equilibrar, algo que pode ser visto como uma gentileza.

Mas não é disso que quero falar. Tem algumas coisas muito interessantes no pedido que Joaquim faz a Manoel, que eu gostaria de comentar.

Porque um pedido bem feito pode ser a diferença entre algo que caminha e algo que fica estagnado.

Bons pedidos e seus contextos

Ao fazer o pedido para que Manoel preparasse o terreno antes de dar uma notícia grave, Joaquim descreve um exemplo de como fazer isso. Dar um exemplo é um jeito de contextualizar o pedido, de torná-lo mais concreto, e assim mais fácil de ser atendido.

Há uma história que encontrei no livro “Coaching – A arte de assoprar brasas” que exemplifica o valor de se dar o contexto.

O autor conta que certa vez fez para sua assistente um pedido de elaboração de um relatório. Ele explicou sobre o que era, pediu que fosse entregue em determinada hora no dia seguinte e até especificou detalhes do formato. O conteúdo, quando, onde, como: tudo estava no pedido, do jeito que manda a cartilha. Mas no dia seguinte o relatório foi entregue e ainda assim não atendeu ao que ele esperava.

Por quê? Porque faltou dar o contexto. A assistente preparou um incrível relatório de 20 páginas, com gráficos e tudo. E ele teria apenas 15 minutos para apresentar o conteúdo em um painel.

Mas você pode estar pensando: Joaquim deu contexto em seu pedido, mesmo assim não teve uma boa resposta. Então o que mais podemos considerar?

Pedido efetivo e o clima apropriado

Você já fez um pedido e recebeu como retorno algo como a respostas de Manoel? Mesmo dando o contexto? Se não, já não viu isso acontecer? Aposto que sim. Porque isso acontece muito, eu acredito. Eu vou falar de dois motivos:

  1. Clima de reprovação e crítica.
    Frases como: “Manoel, onde já se viu dar uma notícia assim” e “Entendeste, parvalhão” colaboram com um clima de reprovação e crítica.
    Confiar o contexto de um pedido ao outro é esperar que ele pense por si mesmo e seja capaz de responder com inteligência. Esse espírito autônomo, assim como respostas inteligentes, não floresce em um ambiente onde não há espaço para erro e experimentação. Quando há um clima de reprovação e crítica, as pessoas ficam mais burras mesmo… E não é que ficam mais burras, mas agem com menos inteligência certamente.
  2. Falta de empatia.
    Em seu pedido, Joaquim insinua que é sempre necessário preparar o terreno quando se vai trazer uma notícia grave. E insinua que isso é o certo a se fazer!
    Mas aí ele não está considerando que Manoel não se importaria de receber a notícia do jeito que ele deu. Até preferiria. (Eu conheço o Manoel, ele não se importaria).
    Entender e aceitar o ponto de vista do outro não só o deixa melhor situado, como também mais motivado a atender o seu pedido da melhor forma.
    Além disso, quando você olha a partir do ponto de vista do outro, fica mais fácil construir a descrição de contexto que O OUTRO precisa. Não apenas o que você precisaria se estivesse ali.

Cultura de abertura e trocas mais inteligentes

Você acha que Manoel entenderia corretamente a reclamação de Joaquim se ele não tivesse dado um exemplo?

É verdade, o exemplo dado por Joaquim pode até ter confundido Manoel.

Mesmo assim, considerando sua atuação na morte de sua mãe, não me parece que Manoel chegaria a uma atitude adequada de jeito nenhum.

E então lhe faço a seguinte pergunta: se a resposta não vai ser adequada mesmo (e se o contexto pode até atrapalhar), para que me preocupar em contextualizar meu pedido?

É, talvez não valha a pena em muitos casos.

Mas quando se trata de uma relação duradoura, não seria bom que as trocas fossem mais eficientes?

Construir uma relação onde a interação é inteligente, que se pauta na capacidade de cada um tomar suas próprias decisões, exige paciência. Principalmente quando o jeito de funcionar estabelecido é outro.

Dar contexto não é a única coisa a se fazer, mas faz parte de um dos dois pilares necessários.

O primeiro pilar é dar condições suficientes para que decisões possam ser tomadas (o que inclui oferecer contextos).

O segundo pilar seria estabelecer um clima onde a pessoa possa errar e aprender com os erros. Com isso ir ganhando autonomia. Isso significa saber que o outro VAI errar. E tudo bem.

Claro que isso demanda tempo e experiência. Por isso falei da paciência que é necessária. E ela nasce da vontade consciente de mudar o jeito das coisas e da fé nesse caminho.

Enfim…

Independente de tudo que foi dito aqui, convenhamos, o pedido do Joaquim não foi tão ruim assim, não é?

Você acha que Manoel é um idiota? Parece que é, não é? E, obviamente, é muito fácil culpá-lo pelo que aconteceu.

Mas, veja: quem sofreu consequências foi Joaquim.

Por isso gosto de pensar que, se eu fosse ele, procuraria entender como EU poderia melhorar. Independente de Manoel.

O pedido de Joaquim tem pouca empatia e transmite um clima de reprovação e crítica. Isso dificulta que Manoel aja com autonomia e inteligência, além de provocar resistência.

Assim dá para entender que Manoel interprete o exemplo de Joaquim como sendo uma instrução para ser seguida ao pé da letra. E isso explica o resultado…

 

Um abraço e boa semana

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