E quando o outro não quer conversar?

7 de dezembro, 2015 - POR Andre Moura

Você já quis conversar sobre um assunto que o outro evitava?

Por que isso acontece? Ao meu ver, o outro pode não querer conversar por dois motivos:

  1. Ele tem medo (ou medos, no plural): de não saber lidar com a situação, de mostrar alguma fragilidade, de ser tomado por alguma emoção, etc.
  2. Ele não quer mexer em algo que é vantajoso para ele. E aí se faz de desentendido.

O porquê é interessante, mas acho que você gostaria mesmo de saber como lidar com isso, não?

Como conversar com o outro que tem medo

Nesse caso, não querer conversar é um mecanismo de defesa. Muitas vezes inconsciente.

Uma ideia aqui é enxergar por trás dessa defesa. Enxergar a parte do outro que está assustada. Então se colocar em seu lugar. Entender quais seus medos. E isso passa por reconhecer os próprios medos envolvidos na conversa.

Outra coisa é reconhecer as necessidades e os interesses do outro. Você pode então pensar em posicionar a conversa como algo que serve a ele também.

Tudo isso faz parte de um exercício de empatia, um assunto sobre o qual Brené Brawn falou de forma muito inspiradora no vídeo do post da semana passada.

Depois de feito isso, a conexão fica mais fácil. Mas se o caminho ainda não se abrir, vou dar mais uma ideia. Você sempre pode falar do que está por trás das máscaras, dizer o que você imagina que está acontecendo ali. O cuidado é trazer como uma hipótese e checar. Por exemplo:

“Eu imagino que você deva se sentir assim e assado e esteja precisando disso e daquilo. É por isso que tais e tais coisas acontecem. Faz sentido? É isso mesmo?”.

Não se apegue à sua hipótese. Escute. Uma hipótese não precisa estar certa. Ela já serviu a seu propósito se gerar movimento (ou gerar operatividade, como diria Pichon Riviere).

Como conversar com o outro que joga

Esse é para o mim o maior desafio. O outro está jogando sujo. Filho da…! Desculpe, não me segurei… É que eu fico com raiva.

A primeira questão que precisa ser respondida é: como saber que se trata de um jogo? Uma das coisas que torna essa situação tão difícil é que você pode sempre ficar em dúvida.

A proposta que trago aqui é que você preste atenção em como você se sente. A relação com a pessoa lhe deixa esgotado? E, ao mesmo tempo, você percebe que o outro está bem? Isso é um sinal de que há sim um jogo.

Você pode também buscar ajuda de uma referência externa, alguém em quem você confie e que possa olhar para história de uma forma isenta. O ideal seria alguém que não veja o mundo como você.

A segunda questão é: como lidar com o jogo?

Dado que você entendeu que se trata de um jogo, você pode fazer como Roger Fisher sugere em “Como chegar ao Sim“: não ataque a pessoa, exponha a tática. Algo como:

“Você evita a conversa. Me faz pensar que é uma tática para não mexer com uma posição que é boa para você. Há algo que justifique essa sua postura?”

Muitas vezes só expor o jogo faz com que o jogador desista dele. Mas pode ser que ainda assim não resolva a situação…

A ideia então é tratar o caso como uma negociação sobre como conversar. E por essa perspectiva, é bom você ter uma alternativa caso ele insista no jogo.

Por exemplo, sua alternativa pode ser desconsiderar certos compromissos, já que eles não podem ser rediscutidos. Pode ser mudar a postura na relação, gastando menos sua energia. Pode ser mudar de casa ou ir viajar. Parar de colocar dinheiro na conta corrente. Não fazer mais o jantar. Enfim, pense em qual seria sua alternativa se ter a conversa que você deseja não for possível. Ter uma alternativa, aumenta seu poder de negociação.

Um cuidado aqui: sua alternativa deve ser apenas uma outra opção para atender necessidades suas. Nunca uma retaliação.

Você pode expor essa alternativa, se você sentir que isso tira o outro da sua zona de conforto e o incentiva a conversar. Ou pode simplesmente agir. Se expor for o seu caminho, seja verdadeiro. Cumpra seu compromisso alternativo, se o jogo permanecer. Apenas ameaçar é um outro jogo.

Eric Berne, o cara da Análise Transacional escreveu um livro inteiro (Games People Play) falando sobre como lidar com vários tipos de jogos. Deixo a referência para quem quiser se aprofundar.

A ciência não é exata

Sempre é possível que a situação seja uma mistura dos dois casos. Muitas vezes se a pessoa está com medo, ela está com medo inclusive de perder alguma vantagem.

Por outro lado, quem está protegendo alguma vantagem, jogando um jogo, lá no fundo deve estar com medo de expor alguma fragilidade ou de não saber lidar com algo.

Enxergar isso pode ajudar também.

 

Um abraço e boa semana!

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