Inspirações para novos olhares

22 de novembro, 2015 - POR Andre Moura

Você já se surpreendeu ao enxergar algo que estava na sua frente, mas que não conseguia ver até um momento atrás?

Essa pergunta tem a ver com o assunto sobre o qual quero falar hoje: os vários olhares que se pode ter sobre uma coisa, qualquer coisa que seja.

Como aqueles móveis multi-funções. Já viram? É um beliche ou uma escrivaninha? É um armário, ou uma estante, ou uma mesa de centro? É tudo. Olha um vídeo, se você nunca viu:

Legal, não é? E poder enxergar de diferentes jeitos permite que se experimente a coisa, o que quer que seja, mais amplamente, de um jeito mais profundo, mais completo. Da forma mais adequada para cada momento!

Eu já tive essa experiência, de passar a enxergar o que eu não via. A sensação é mágica. De repente a coisa está lá. E estava lá o tempo todo!

Um exemplo bem lúdico e concreto são aqueles desenhos de padrão repetido que, olhando bem de perto, contêm uma forma em 3D lá dentro. Aqui tem um exemplo:

shark

Escondido aqui há um tubarão.
Outros exemplos você encontra aqui.

Você só consegue enxergar se organizar seu olhar de um determinado jeito. Nem sempre eu consigo, mas quando consigo é quase um susto! Tem gente que consegue muito rápido e fácil. Tem gente que nunca consegue e a vontade é acreditar que não é possível. Eu já estive nesse lugar. Mas acreditem: por mais que não seja fácil (como não era para mim), é possível. Trata-se de uma mudança de olhar. Uma mudança de perspectiva.

Quando mais eu senti isso? Resolvendo um problema de matemática. De repente, há um sentido naquilo que eu estou tentando resolver, um sentido que até então eu não via.

Onde mais? Deixa eu ver um exemplo onde o sentido não está em um só olhar, mas em vários. Já sei: sonho. Sonho é um exemplo. O mesmo elemento num sonho pode ser meu pai, meu chefe, eu mesmo, meu trabalho.

Essa experiência de encontrar, descobrir uma nova perspectiva é muito especial. A descoberta é excitante! É como um presente novo para uma criança, o primeiro jogo de colorir, o primeiro ioiô, o primeiro álbum de figurinhas. Mas é mais profundo que isso. É como a experiência do pai, quando um filho olha para ele e diz pela primeira vez: “papai”. Aquele ser que era só um bebê vira gente!

Mas poder enxergar algo novo em algo conhecido tem seu lado assustador. Por dois motivos.

Primeiro porque você pode deixar de enxergar o que você enxergava antes. Sabe o clássico desenho do cubo? Pois é. Veja ele aqui:

download

Você o vê virado para a direita e para cima ou para a esquerda e para baixo? Se você não sabe, vou contar: você pode escolher. Mas, para mim pelo menos, trocar de visão deixa bem difícil enxergar a que eu via antes. Eu tenho que fazer um esforço para voltar a ver do outro jeito. Ganhar total autonomia para trocar de perspectiva, para enxergar o que se deseja a qualquer momento, é um exercício.

Segundo – o que é mais assustador – é que você pode descobrir que a primeira visão que você tinha era uma ilusão. Veja essa bicicleta:

nicebike04sr8

Será que é mesmo uma bicicleta?

nicebike03vz9

É o mesmo medo de perder algo conhecido que se tem no primeiro caso. Mas aqui é um medo maior, pois se trata de uma perda irreversível.

Tenho amigos que acham que foi o que aconteceu quando entenderam que Deus não existe. Na visão deles, Deus existir era uma ilusão, e quando puderam ver a verdade, ganharam um entendimento mais profundo do mundo. Mas perderam a crença em Deus, um conforto que nunca mais teriam.

Na minha opinião, o que aconteceu ali foi mais como o caso do cubo. São duas visões de valor sobre a realidade, Deus existe e Deus não existe, e você pode escolher a mais adequada a cada momento. Não acredito em uma que seja “a certa”. Claro, claro, isso é o que eu penso. Meus amigos discordam.

De qualquer jeito, estar aberto a outras perspectivas, é isso que David Bohm propõe na sua prática de diálogo. E mais, estar aberto ao que a perspectiva do outro desperta em você. Para isso você deve abrir mão de fazer a sua visão prevalecer, de defender o seu ponto de vista. É uma mudança. Difícil. E compensadora.

Tem um texto importante do Mariotti – “O automatismo concordo-discordo e as armadilhas do reducionismo” – que fala sobre isso, como estamos automaticamente preparados para concordar ou discordar das coisas que ouvimos. Sem mesmo antes ouvir. Profundamente. Até o fim. O texto é ótimo e quem quiser mais inspiração, pode ler aqui. Espero que ajude.

Acho que escrevi tudo isso porque quero deixar duas mensagens:

  • É possível ter várias perspectivas sobre uma mesma coisa. E vejam, várias perspectivas de valor! Se você enxerga, compreende, vislumbra algo que é caro para você, isso não significa que não se pode enxergar outras coisas.
  • A melhor forma de expandir seu universo é abrir mão de discutir. E escutar. De verdade.

Um abraço e boa semana.

Fields marked with an * are required