Sexo, abuso e conversas difíceis

9 de novembro, 2015 - POR Andre Moura

Nessa semana muito se falou sobre abuso sexual. Histórias que me deixaram movido. Porque é muita gente falando. Porque em muitas histórias, a criança protagonista não teve coragem de contar o que aconteceu. Porque houve casos onde a criança era castigada quando contava.

É claro, não existe uma única história. E tem o efeito do comportamento de massa, que provavelmente influencia parte dos relatos. Além disso, esse assunto não era completamente novidade porque eu já tinha ouvido histórias de amigas, em um contexto de muita intimidade. Mas mesmo assim, não é fácil!

Para mim, cada história conecta com uma sensação muito ruim, na boca do estômago. Possivelmente tem a ver com a minha história com sexo.

Penso que eu era um menino normal, no geral. Talvez mais tímido que a maioria. Só que em relação ao meu corpo, ou ao corpo do sexo, tinha algo estranho. Eu não lembro exatamente de nada que tenha acontecido. Suspeito que pode ter sido mais a sensação geral de uma sombra herdada do que algo específico. Minha mãe talvez tivesse dificuldade em lidar com a educação sexual de um menino. Devo ter sido muito reprimido. Meu pai pode não ter estado perto para me dar referência.  Esse vazio aumentava a sombra. Talvez, no meu convívio com os outros meninos, eu tenha testemunhado alguma coisa que EU reprimi. A relação com alguns meninos me assustava muito. Com meus amigos eu vivia apreensivo. Eu os via falando de coisas que eu não entendia e me sentia mal. Lembro de ter sido motivo de piada pela minha inocência. E eu não tinha sequer ideia do que se passava. O assunto era assustador e eu torcia para que ele não surgisse nas conversas. Um assunto que eu nem sabia o que era! Foi muito difícil, eu tinha muita vergonha e medo.

Vejam, quero reforçar que minha maior suspeita, depois de muita investigação, é que meu drama não estava conectado a algo que me aconteceu, mas sim a algo que me foi transmitido de uma forma mais sutil. Uma sombra herdada.

Acho que é essa sombra que conecto com as histórias que ouvi. E então fiquei com vontade de falar das sombras.

Sexo, ainda hoje, vive nas sombras. Por mais que se fale, por mais que a sociedade tenha caminhado, há ainda muita sombra. E acredito que nas sombras germinam-se os monstros. Quer ver como é?

Nós falamos sobre sexo? Sabemos falar com as crianças? Sabemos falar sem sentir vergonha nem constrangimento? Sabemos falar sem sermos caricatos? Sabemos falar de forma prática e ao mesmo tempo viva, sem cair em descrições frias e mecânicas? Compartilhamos nossas dificuldades? A gente fala das emoções que o sexo envolve? A gente fala de pinto, bunda, boceta, sem pudor, mas também sem afetação?

Muito tabu. Conversa difícil.

Vou propor mais uns testes: pergunte-se o que você sentiria se seu filho (imagine que tem um, se não tiver) viesse lhe perguntar como um bebê entra na barriga da mãe. Ou sobre por que o meu é diferente do dela. Imagine e veja o que você sentiria. O exercício não é ver se você saberia responder, mas olhar para o que você sentiria.

Trazer algo da sombra para a luz é muito desafiador! Medo e vergonha. E o que tem acontecido nessas semanas é um passo muito significativo. Das mulheres que contaram suas histórias. E do coletivo, movido por elas e por quem lhes dá suporte.

Eu só queria propor um movimento construtivo para que não fiquemos na raiva sobre o que se passou. Primeiro dando minha visão de como podemos nos sentir mais à vontade e falar mais sobre sexo. Sem pudor, como outros assuntos de nosso interesse.

Acredito que a resposta passe por encontrar um jeito de olhar o assunto sexo de frente e experimentar o que sentimos. E isso tem a ver com os relatos dessa semana. Mas como ir além da raiva?

Que entremos então em contato com as dores. Que encontremos lugares seguros para falar dessas dores, das nossas inseguranças, dos medos e vergonhas. Que reconheçamos o lado positivo do sexo, os deleites e encantos e como eles estão entrelaçados com tudo isso. Que então possamos desatar os nós e ficarmos com o bom, descartando o mau. Passando enfim a ter uma relação com sexo mais saudável e em paz.

Esse é o caminho que vejo para evitar a transmissão dos traumas de quem sofreu assédio ou de quem viveu na sombra. De evitar a propagação da raiva, do ressentimento, da mágoa, da vergonha, do medo. Propagação essa que pode acontecer mesmo que seja de uma forma muito sutil.

E partindo daí, desse lugar de mais paz, educar nossos filhos.

Tratando o assunto com leveza e cuidado para que o assédio deixe de existir. Educando, meninos e meninas a estarem preparadas para os riscos externos, reconhecendo o poder de atração entre os sexos e a consciência que devem ter sobre o que essa atração provoca. E sobre os impulsos internos que sentem e as consequências de agir sob a influência desses impulsos sem considerar o bem-estar do outro.

Existe algo no sexo muito poderoso e mágico. Mitológico. Talvez por isso assuste. Mas que o torna tão grandioso e belo. Talvez a atividade humana que mais nos aproxime do divino. É por isso que arrisco a dizer: tirar o sexo das sombras, culturalmente, mudaria para melhor muita coisa no mundo em que vivemos. E isso começa com cada um.

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