Quando a verdade não é bem-vinda – caso 3

21 de outubro, 2015 - POR Andre Moura

A verdade, apesar de toda a sua reputação e moral, em alguns casos não é bem-vinda.

Claro, claro, é uma virtude ser verdadeiro, e é algo que muitas vezes não é fácil e depende de coragem. Sim, não discuto isso.

Isso não me impede de reconhecer que há momentos em que você deve escolher o que falar.

Este post é parte de uma sequência onde discutimos esse assunto. Tudo começou neste post aqui, onde falamos sobre como filtrar o que falar. Seguido deste outro aqui, onde são listados os três casos em que a verdade não é bem-vinda.

Um desses casos é o assunto deste post. Conversaremos aqui em detalhes sobre ele:

Quem disse que sua verdade é inquestionável?

O dono da "verdade"

O dono da “verdade”

Essa questão é polêmica…

É que a pergunta embute uma ideia mais difícil de digerir:  não é o outro, a priori, a fonte de um possível problema de comunicação. Não é o outro que simplesmente não está aberto ou não consegue receber a sua mensagem. O que pode estar acontecendo é que a SUA verdade seja QUESTIONÁVEL!

E é difícil fazer essa autoanálise. Se você acha que alguma coisa é verdade, dá para imaginar que seja algo inquestionável para você.

Afinal, É VERDADE, não é?!

O problema é que o outro pode achar diferente… e ter razão!

Ter razão é diferente de estar certo, veja bem. Tem um post nosso que fala sobre isso aqui.

Vou dar dois exemplos para ilustrar casos que têm grande potencial de gerar discórdia. Vou colocar de um jeito em que a gente se coloque no lugar da pessoa fazendo a afirmação:

  • Eu sou ateu e AFIRMO que Deus não existe.
  • Eu sou religioso e AFIRMO que sexo fora do casamento é pecado.

Talvez você se reconheça em um ou outro exemplo. Talvez não. Não importa. Escolhi as duas afirmações porque, é de conhecimento notório e público que há quem discorde delas. De uma ou outra. Ou mesmo das duas. Quem faz qualquer uma dessas afirmações, sabe disso, sabe que há quem discorde.

E é óbvio ululante que usar tais afirmações com pessoas que discordam é receita para confusão. NÃO VAI FUNCIONAR!!!

E por que NÃO FUNCIONA?

Respondo essa pergunta com outra: oras, quem pode dizer que sabe a verdade? “Vou lhe falar uma verdade”. Que verdade seria essa? Quem tem a autoridade para dizer se algo é verdade ou não?

(Acho até que daqui para frente vou colocar “verdade” entre aspas.)

O valor por trás da “verdade” de que discordo

Por outro lado, aquele que está afirmando a tal “verdade” sente que tem algo de real valor para dar, não sente?

Pois é. Vou fazer uma suposição ousada aqui! Preste atenção. Está preparado? Aí vai: o que o outro traz sempre tem valor.

Iiiih! Talvez você tenha ficado incomodado agora. Talvez você tenha sentido um arrepio na espinha. Talvez tenha se ajeitado na cadeira. Tudo bem, só não vá embora ainda, me dê uma chance de explicar o que quero dizer.

Vamos pegar os exemplos acima para examinar (a lista de dois que fiz agora pouco). Vou construir uma visão empática a cada uma das “verdades”. Veja que para mim é um exercício, porque não acredito particularmente em nenhuma das duas afirmações.

Preparados? Vamos lá!

Da primeira afirmação – “Deus não existe” – gosto da ideia de não esperar que um salvador místico venha e resolva os meus problemas, que cada um é responsável pelo próprio destino. Ao mesmo tempo, gosto da ideia de que não existe castigo além da resposta natural da vida às escolhas e atitudes de cada um. Acho que essa visão dá um certo pé no chão, e eu gosto disso.

Da segunda afirmação – “sexo fora do casamento é pecado” – consigo enxergar que sexo com uma pessoa amada, feito com entrega e compromisso, é uma experiência de uma profundidade, de uma beleza especial. Quem experimenta isso pode considerar – mesmo que metaforicamente falando – que é um pecado praticar sexo de qualquer outra forma. E eu gosto disso.

É isso que EU vejo de “verdade” nas duas afirmações. Mas de novo, quem sou eu?

Uma inspiração

Refletindo e lendo sobre essa questão do que é “verdade” para cada um, me deparei com um poema do Carlos Drumond de Andrade chamado “A verdade”. Que resume o que estou querendo dizer. Resolvi colocá-lo aqui para servir de inspiração:

A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade, e a segunda metade voltava igualmente com meios perfis e os meios perfis não coincidiam com a verdade….

Arrebentaram a porta.

Derrubaram a porta, chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela e carecia optar.

Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

O que fazer então?

Certo, certo, parece que ninguém enxerga a verdade absoluta, a verdade inteira. Mas, na prática, é bom ter pontos pacíficos sobre o que é e o que não é. Isso ajuda à eficiência das conversas.

Então, o que fazer se você tem algo para falar que “sabe” que é “verdade”? Vão aí minhas sugestões:

  • Primeiro, se você não sabe ainda se o outro discorda de você, fale com confiança, sem preocupação. Se for algo que vocês têm em comum, só vai ajudar.
  • Esteja sempre atento. Ao sinal da discordância do outro, lembre-se humildemente que ninguém consegue enxergar TODA a verdade. Nem ele. Nem você.
  • Procure encontrar onde há concordância entre o que vocês pensam. Se possível, afirme isso.
  • Avalia se a parte de que vocês discordam é relevante para a conversa. Se não for, desista dela e siga a partir de onde vocês concordam.
  • Por outro lado, se for relevante, procure entender a essência do que é importante para você, que está ali na sua afirmação. Cuide da essência e não da “verdade”. Você verá que quando se chega no essencial, a gente se encontra.
  • Por fim, escute o outro. Abra-se um pouco. É possível que descubra algo novo, e isso gera expansão do seu universo.

Fazer tudo isso, é mais fácil falar que fazer. E não acredito em mecanizar o processo.

O que dá para fazer, que acho que é o mais rico (mesmo porque eu não sou dono da verdade!), é olhar para conversas que você vem tendo e se observar. As sugestões trazidas aqui servem então para ajudar nessa observação:

Quando você deixou de fazer o que propomos aqui? O que aconteceu? O que estava se passando com você? Que parte sua escolheu um caminho diferente? Se tivesse agido como proposto aqui, o que teria acontecido? O que você aprende com estas reflexões?

Aos poucos, sua estrutura vai incorporando os aprendizados dessa reflexão. Talvez você chegue a algum lugar novo. E este lugar será seu.

Um abraço e boa semana!

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