Quando a verdade não é bem-vinda – caso 2

14 de outubro, 2015 - POR Andre Moura

A verdade, apesar de toda a sua reputação e moral, em alguns casos não é bem-vinda.

Claro, claro, é uma virtude ser verdadeiro, e é algo que muitas vezes não é fácil e depende de coragem. Sim, não discuto isso.

Isso não me impede de reconhecer que há momentos em que você deve escolher o que falar.

Este post é parte de uma sequência onde discutimos esse assunto. Tudo começou neste post aqui, onde falamos sobre como filtrar o que falar. Seguido deste outro aqui, onde são listados os três casos em que a verdade não é bem-vinda.

Um desses casos é o assunto deste post. Conversaremos aqui em detalhes sobre ele:

Quando outro não é capaz de entender

crianaa_gravataVale insistir em alcançar alguém que não alcança você?

***

Eu particularmente gosto muito de histórias budistas. Mas eu sei que tenho que escolher para quem vou contar. É fácil eu achar uma audiência que se decepciona com o final.

Será que você já não ouviu uma história dessas e ficou com a impressão que faltava algo?

Se nunca ouviu, vou contar uma que gosto, para você sentir como é:

“Um monge passeava numa floresta quando se deparou com um tigre. Sem pensar em nada disparou a correr e o tigre foi em seu encalço. Só que ao sair das folhagens, sem que percebesse, deu de cara com um penhasco. Como vinha no embalo não conseguiu parar e caiu. Para sua sorte, da parede do penhasco pendia uma árvore e, antes de ganhar velocidade, o monge conseguiu segurar-se no seu tronco! Com o tigre a espera-lo em cima e uma queda enorme a espera-lo em baixo, ele teria ficado lá por horas. Mas então o tronco estalou e começou a quebrar!!! Foi aí, no momento em que tudo parecia perdido, que ele viu pendendo de um galho uma cereja madura, brilhante e suculenta. O monge então, sentindo um grande prazer, a comeu.”

Se você não entendeu a história, não gostou, achou estranha de alguma forma, talvez ela não seja para você. Veja, não há qualquer julgamento aqui.

A primeira vez em que eu ouvi essa história, falei: “mas cadê o fim!?!”. Pois é. E como eu nunca achei que o problema fosse meu, eu resolvi achar que a história era ruim.

Na verdade, nem a história era ruim nem eu tinha qualquer problema. Não ser capaz de entende-la significava apenas que eu não tinha CONTEXTO suficiente. Quando eu fui me aproximando da cultura budista, a história foi fazendo mais sentido.

Achei essa história um exemplo bem ilustrador porque, mesmo para quem tira dela algum significado (que é meu caso hoje), é bem claro como ela pode soar estranha, não?

***

Mas vamos lá, eu tenho uma história que pode ilustrar melhor a importância do que estamos falando aqui.

Eu tenho uma amiga que é educadora e trabalhou com alfabetização durante muitos anos. Ela conta que seus alunos aprendiam a escrever com três meses de trabalho, invariavelmente.

Uma vez ela atendeu um menino chamado João que era autista. Durante o processo, João costumava mostrar a ela o que vinha escrevendo. Se João dizia que tinha escrito “batata”, mas tinha escrito na verdade “btt”, ou “aaa”, ou “bototo”, ela simplesmente agradecia. Pedia para ele explicar e procurava então apontar o avanço na compreensão (às vezes um fonema correto, às vezes o número de sílabas, etc…).

Ela deveria dizer que os textos estavam incorretos? Era verdade, mas ela deveria dizer? Pelos resultados, parece que não. João hoje lê e escreve muito bem.

Se entendermos porque funcionou vai ficar claro porque trouxe esse exemplo.

Para ela, o aluno nunca estava completamente errado. Se ela apontasse o erro, o aluno podia perder as compreensões que vinha construindo. Ele poderia não ser capaz de entender que “estar errado” era diferente de “estar completamente errado”.

***

Esses foram exemplos que me vieram. E você? Pode pensar em exemplos da sua vida onde você acha que não há como o outro entender o que você tem para falar?

Mas existe um perigo nessa história

O perigo é usar a suposta dificuldade do outro em compreender, para evitar encarar as próprias dificuldades e limitações. “Ah, é o outro que não é capaz de entender! A culpa é dele e não há o que fazer!”

Essa postura pode resultar em duas coisas: você sistematicamente fazer coisas pelo outro (coisas que o outro deveria estar fazendo); ou desistir de coisas que são importantes para você.

Uma breve história minha

Minha mãe vivia mexendo nas minhas coisas (talvez você reconheça esse cenário). Com cerca de vinte anos ela fez isso pela última vez (sim, eu morava com meus pais então… e muito tempo depois disso também). Foi quando eu decidi que ia fazer ela entender como era desrespeitoso o que ela fazia. Não que eu não tivesse tentado falar antes. Aliás, provavelmente eu havia falado todas as vezes que isso havia acontecido.

Eu poderia ter desistido. “Ah, ela nunca vai entender!”. Mas eu decidi tentar mais uma vez.

O que fez diferença dessa vez foi que eu me preparei para a conversa. Para isso eu saí e fui andar. Andei por horas, parte das quais estive envolvido em sentimentos de raiva e pensamentos de vingança. Eu tive que passar por isso para chegar à compreensão do mais fundamental: eu queria cuidar da minha relação com ela.

Eu entendi como era importante ter uma mãe em quem eu confiasse. Entendi que eu devia falar da minha dor, da minha falta. Entendi como aquilo que eu pedia – que ela não mexesse nas minhas coisas – era apenas um símbolo de uma relação de desrespeito que havia entre nós. Dos dois lados. E eu me propus a ter uma conversa com ela onde eu fiz o melhor para entregar meu coração, mesmo passando por cima do meu orgulho.

O que fazer então?

Então, mesmo que você ache que a dificuldade de entender é do outro, a primeira coisa a se perguntar é: Conversar com o outro e faze-lo entender algo, pode melhorar a minha vida?

Se a resposta for afirmativa, vou listar duas ideias que podem ajudar:

  • De tudo que você quer falar, avalie o que serve a seu ego e o que de fato serve a resolver algo.
    Muitas vezes a necessidade de falar de algo é um pedido do ego de ser ouvido e receber atenção. Talvez seja uma necessidade de se vingar ou obter justiça. Esteja atento para isso. E vá além. Sempre se pergunte: o que é realmente importante que o outro entenda? E a pista de que você tem uma boa resposta é que ela deve ser algo bom e que considere a relação com o outro.

“Qualquer método de negociação […] deve melhorar – ou, pelo menos, não causar dano – à relação entre as partes.” – Roger Fisher em Como Chegar ao Sim

 

  • Coloque-se no lugar do outro.
    Tente enxergar o que o outro vê e sente, principalmente quando é diferente do que VOCÊ vê e sente. Isso pode ampliar seu entendimento e melhorar a comunicação. Você pode descobrir novos pontos de vista, entender quais as melhores formas de se chegar no outro e ainda receber em troca uma postura mais aberta e leve, porque o outro percebe o seu movimento de abertura. Você mesmo vai se sentir mais seguro. Simplesmente porque, ao se colocar no lugar do outro, você deixa de lado a postura de guerra.

“Quanto mais empatizamos com o outro, mais seguros nos sentimos” – Marshal Rosenberg em Comunicação Não-Violenta

Um abraço e boa semana!

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