Quando a verdade não é bem-vinda – caso 1

7 de outubro, 2015 - POR Andre Moura

A verdade, apesar de toda a sua reputação e moral, em alguns casos não é bem-vinda.

Claro, claro, é uma virtude ser verdadeiro, e é algo que muitas vezes não é fácil e depende de coragem. Sim, não discuto isso. Eu mesmo sou uma pessoa que faço todo esforço para falar a verdade, mesmo quando é difícil.

Isso não me impede de reconhecer que há momentos em que você deve escolher sobre o que falar.

Este post é parte de uma sequência onde discutimos esse assunto. Tudo começou neste post aqui, onde falamos sobre como filtrar o que falar. Seguido deste outro aqui, onde são listados os três casos em que a verdade não é bem-vinda.

Um desses casos é o assunto deste post. Conversaremos aqui em detalhes sobre ele:

Quando o outro não está disposto a ouvir

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Quem disse que o outro tem que saber algo, só porque é verdade?

Você vai a um show de mágica e fica encantado com os números apresentados. Só que na sua companhia está um amigo, que para seu azar, entende de mágica e é chato. A cada número, lá vai ele explicar como o infeliz do mágico fez aquilo. O show acaba e você pensa que seria melhor ter ido sozinho.

Talvez se o amigo lhe contasse os truques depois do show, seria até legal. Mas durante o show…

Neste caso você é o outro que não está disposto a ouvir e o seu amigo é quem insiste em lhe contar “a verdade”.

Fiz questão de mostrar um exemplo invertido, para ficar claro como é desagradável para quem tem que ouvir uma verdade que não ajuda.

Muitas vezes, o processo de descobrir a verdade é precioso em si. E pode acontecer de a pessoa escolher não ouvir o que você tem para falar só porque quer preservar esse processo.

Vocês conhecem o cubo mágico? Eu montei ele sozinho, um desafio ao qual me propus, sei lá por quê. Demorei 2 anos (tá, pode não ter sido a façanha mais rápida do mundo, mas eu consegui). Se alguém me contasse como resolver esse problema durante o processo, eu não ia gostar.

Muitas vezes pode não haver confiança suficiente entre quem fala e quem escuta. Falar algo que é verdade num caso assim, pode atrapalhar a pessoa que está querendo entender ou descobrir a verdade, já que ela não vai acreditar no que você tem para dizer.

Imagine seu amigo que está com problemas com a esposa. Digamos que você sabe que ela o está traindo. Você contar ou não para ele depende muito da intimidade que vocês têm um com o outro, não? E intimidade tem a ver com confiança.

Bom, sendo assim, perceber se o outro não está disposto, ou aberto, ou interessado em ouvir algo pode nos ajudar a decidir se falamos ou não. Mas…

E quando devemos falar mesmo assim?

É perigoso se apegar à “percepção” de o outro não estar disposto a ouvir uma verdade. E o perigo é usar isso para evitar falar sobre algo difícil.

Por isso não basta considerar se o outro está disposto a ouvir, mas também se é necessário que ele ouça.

Se a conclusão for que sim, aí temos um desafio.

Falar para alguém algo que ele não está disposto a ouvir pode ser muito difícil. Eu já passei por histórias onde eu falei algo e a pessoa não recebeu, não considerou, ignorou como se fosse uma fantasia.

E aí, meus caros, é bom saber que EU posso ter algo a aprender: pode haver coisas que eu não estou vendo; pode haver coisas que estou tentando impor ao outro e que são problemas meus; pode ser que não seja a hora certa.

E pode ser, sim, em última instância, que a pessoa não aceita, não quer enxergar.

Não acho que haja uma solução mágica para resolver isso. É mais uma arte que uma ciência. Mas há uma história muito bonita que retrata um possível caminho:

A verdade quer entrar

Certo dia, uma moça nobre e muito bonita que se chamava Verdade resolveu visitar o castelo do rei. Como não tinha nada a esconder, foi vestida como sempre, apenas coberta por leves e delicados véus. Quase nua. Bateu no portão e um dos guardas veio abrir. Ela se apressou a dizer que queria ver o rei. O guarda perguntou seu nome e ela disse: “me chamo Verdade”.

O guarda foi até o rei e contou que uma mulher quase nua e muito bonita, com ares de nobreza, o queria ver. E disse seu nome.

“A Verdade!?! Não é possível! Nua dessa forma!? Não a deixem entrar!  De jeito nenhum! Se a Verdade entrasse aqui seria uma vergonha para todos nós! Mandem-na embora!

A Verdade ficou arrasada com a recusa.

Mas ela era obstinada. Resolveu que tentaria de novo e, como tinha outros nomes, se apresentaria diferente. Vestiu uma roupa justa de couro grosso e foi bater no portão do castelo. Quando o guarda abriu ela se apressou a dizer:  “Eu sou a Acusação e quero ver o rei!”

O guarda foi até o rei e contou que uma mulher muito bonita e séria, com ares de desafio, o queria ver. E disse seu nome.

“A Acusação!?! Não é possível! Não a deixem entrar! Séria desse jeito!? Melhor não! Só Deus sabe a quem a Acusação poderia ferir! Mandem-na embora!

A Verdade ficou arrasada com a recusa.

Mas ela era caprichosa. Resolveu que tentaria de novo e, como tinha outros nomes, se apresentaria diferente. Vestiu uma roupa de um raro tecido bordado a ouro, cobriu-se com joias e adornos e envolveu o rosto em um manto de seda. Quando o guarda abriu ela se apressou a dizer:  “Eu sou a Fábula e vim para ver o rei!”

O guarda foi até o rei e contou que uma mulher muito bonita e misteriosa, com ares de encanto, o queria ver. E disse seu nome.

“A Fábula! Que benção receber sua visita!!! Deixem-na entrar e chamem todos da corte para recebe-la! Faremos um banquete!”

E assim, travestida de Fábula, a Verdade entrou no castelo.

Enfim: há formas e formas de se dizer uma verdade.

Um abraço e boa semana!

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