Quando a verdade não é bem-vinda

30 de setembro, 2015 - POR Andre Moura

monkeysEu tenho uma crença profunda de que a verdade é o caminho para construir relação ricas e saudáveis.

Uma pessoa que é espontânea, autêntica é, em última instância, verdadeira.

Por outro lado, ter um compromisso absoluto com a verdade, “a verdade a qualquer preço”… Parece-me rígido demais. O que não combina com ser espontâneo, por exemplo.

Vinha eu refletindo sobre isso quando escuto três histórias falando sobre a verdade! Três!! Todas falando que a verdade, por vezes, não é bem-vinda.

Escolhi uma delas para contar para você aqui.

A segunda história que escutei, você pode ouvir contada pela contadora de histórias Elvia Perez clicando aqui . E a terceira, vou deixar para um próximo post.

A  verdade a qualquer preço?

Dois amigos que erravam pelo mundo, sem se dar conta, entraram no reino dos macacos. Seguiam seu caminho despreocupados, quando a guarda real os assaltou de surpresa. Foram capturados e logo levados à presença do rei.

Na sala de audiência, o rei dos macacos do alto de seu trono quis saber quem eram. Eles responderem serem andarilhos e que já haviam visto praticamente o mundo todo.

O rei, curioso, se interessou. Perguntou então o que eles achavam de seu reino.

O primeiro amigo, que era um experimentado diplomata, não hesitou. Disse o quanto estava maravilhado de ver uma corte tão elegante, um palácio rústico tão natural e acolhedor, aquele ar caloroso da natureza, uma guarda tão disciplinada e eficiente. Poucos lugares o deixaram tão bem impressionado, ele disse.

O rei ouvia com atenção, arregalando os olhos e se empertigando no trono. Ficou todo orgulhoso! Ao fim da declaração, encheu o visitante de elogios e ordenou que dessem a ele o melhor quarto do palácio e a mais bela donzela para passar a noite. E que fosse nomeado cavaleiro da Ordem da Banana de Ouro!

Virou-se então para o outro amigo para saber o que ele pensava.

Esse era um partidário da verdade a qualquer custo. Hesitou, refletindo por um segundo. Então dirigiu-se ao rei dizendo que – para falar a verdade – aquilo ali era um lugar muito sujo, que aquela macacada não tinha qualquer graça, que o palácio parecia uma favela, que o calor do lugar deixava todo mundo meio malcheiroso, que sua guarda era rude e desajeitada e que ele, enfim, tinha visto poucos lugares tão bagunçados em sua vida.

O rei, enquanto ouvia, ia se inflamando e quase não pode se conter de raiva. Foi só o viajante acabar e o rei explodir, ordenando aos berros que dessem a ele uma sova de pau por aquela insolência toda.

Pois é! Não é o que dizem? (Moral da história:) Quem for amigo da verdade, que use couraça ao lombo.

Uma boa história é algo poderoso porque suas imagens carregam uma força.

O que fica para mim desta história – e que eu gostaria de deixar para você – é que, em qualquer que seja a conversa, existe uma sabedoria em reconhecer O QUE falar e QUANDO falar.

Perguntei-me então: será que dá para aprendermos sobre isso?

Tentando dar uma resposta, lembrei de uma quarta história. Se você ainda não leu, eu escrevi sobre ela em Os três filtros sobre o que falar em uma conversa. Alguns bons insights encontramos ali.

Resolvi então investigar: em que situações a verdade não cabe? Li algumas histórias. Lembrei-me de outras. E me deparei com a questão filosófica de se a verdade existe. Tudo isso me ajudou a reunir…

3 situações em que a verdade não é bem-vinda

Cheguei a três tipos de situações. O que é bom, três é um número mágico. Vamos a elas:

A primeira situação da lista é bem fácil de conectar à história da “macacolândia”. O rei ali não quer uma análise honesta de seu reino, não está disposto – sequer preparado – para ouvir.

A segunda situação tem a ver com falta de repertório por parte de quem ouve. Na história, o rei pode ser alguém que, ao receber uma crítica, só consegue enxergar uma desqualificação completa. Para ele só existe bom e ruim, bonito e feio, preto e branco. Nunca um meio termo. Por isso a descrição negativa é intolerável.

A terceira situação tem a ver com apresentar uma perspectiva sobre a verdade, como sendo A Verdade Absoluta. Na história, o segundo amigo descreve o seu ponto de vista. Só que de uma forma bem assertiva. Poderia se dizer, até arrogante. Como o ponto de vista dos macacos é outro, a descrição é recebida como um desaforo.

***

Entender essas situações ajuda a escolher o que trazer em uma conversa, principalmente em momentos delicados.

Como essa escolha acontece no calor do momento, é bom que esse entendimento esteja bem sedimentado. E o que discutimos aqui é só a superfície. Pensamos que vale a pena aprofundar a compreensão disso tudo. É por isso que dedicaremos um post a cada uma dessas situações. (*)

(*) Conforme os posts referenciados aqui são publicados, as situações listadas acima vão virando links. Experimente passar o mouse em cima para ver se o conteúdo já está disponível

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