Três filtros sobre o que falar em uma conversa

25 de setembro, 2015 - POR Andre Moura


O discípulo se aproximou do mestre dizendo:

– Mestre, eu soube que estão falando algo de você!…

– Espere um minuto – disse o mestre. – Você passou este “algo” pelos três filtros, meu filho?

– Como, mestre?

– Vamos lá. O que você tem para me contar é verdade? Com certeza?

– Hummm… Não sei, mestre, eu ouvi falar…

– É bondade? É amoroso de alguma forma?

– Hummm… Mestre, eu diria que é o contrário…

– É necessário? Eu preciso saber?

– Hummm… Não, particularmente, mestre.

– Bom, meu filho, se o que você tem para me contar não é certamente verdadeiro, não é bom, e não é necessário… vamos deixar isso de lado, que tal?

Eu gosto muito dessa história. Ela apresenta um sistema de decisão sobre o que merece ser trazido para uma conversa. Serve especialmente a uma conversa difícil.

O sistema dos 3 filtros em detalhes

O sistema apresenta três perguntas. Se a resposta for NÃO para as três, não conte o que tem para contar.

E se a resposta for SIM? Conte logo? Faça as outras perguntas? Isso não está explícito na história.

Para saber, sugiro analisarmos cada uma das perguntas em detalhes, que tal?

Filtro 1 – O que você tem a dizer é, com certeza, verdade?

A ideia aqui é saber se você está convicto sobre a informação.

Imagine que você vai encontrar com um amigo cuja mulher o trai. Vamos dizer que você “sabe” isso porque alguém lhe contou, alguém que não seja absolutamente confiável.

Se esse é o caso, a resposta ao filtro é NÃO. No máximo, NÃO SEI. O que significa: tente os próximos filtros.

Agora, se você viu a mulher de seu amigo entrar em um motel. Acompanhada de um homem. Na hora do almoço. E uma hora depois ela saiu com cabelo molhado. (Se você viu tudo isso pode ser que você estivesse fazendo algo parecido, ou trabalhando de detetive, ou perseguindo a mulher do seu amigo. Bom, tudo bem, não importa.)

Sendo esse o caso, a resposta ao filtro passa a ser SIM. Aí você pode contar, talvez deva.

Mas dizer algo simplesmente porque sei que é verdade, não faz muito sentido. Eu posso saber que eu tenho hemorroidas, mas não saio por aí falando (esse foi apenas um exemplo para ilustrar, viu).

Antes de decidir se falo ou não, vale perguntar se o que tenho para falar passa em pelo menos mais um dos outros filtros.

Filtro 2 – O que você tem a dizer é bondade?

A ideia aqui é se o que você tem a dizer é algo positivo, amoroso.

Pode ser um elogio, uma expressão de respeito ou admiração, um feedback positivo. Até uma boa notícia. Se for, a resposta ao filtro é SIM e vale a pena contar.

Por que? Porque em qualquer conversa é muito bom trazer algo que gere conexão e traga um clima de abertura, desarmando possíveis defesas. Algo impregnado de “bondade” faz isso.

Por outro lado, se for algo negativo como uma crítica ou uma reclamação, a resposta aqui é NÃO. Mas isso não significa que deve-se deixar de falar. É por isso que há o próximo filtro.

Filtro 3 – O que você tem a dizer é necessário?

A ideia é se perguntar se o outro precisa saber, se é importante que ele saiba. Ou mesmo se é um assunto necessário de tratar.

O cenário mais relevante é quando você tem algo difícil a dizer.

Imagine que seu amigo tem um bafo de onça. Ok, você lhe oferece uma bala de menta aqui e ali, mas isso não está ajudando muito. E você não sente mais tanta vontade de estar perto.

É necessário falar para ele do seu incômodo? A resposta aqui parece ser SIM. Tanto para você quanto para ele. Então, fale.

No entanto, se não você não se incomoda, e você não vê qualquer consequência para seu amigo… Bom, deixe que a vida segue.

Agora voltemos ao caso do seu amigo com a mulher infiel. Mesmo que você não tenha certeza se é verdade, vale a pena falar? Aqui o filtro pode se apresentar como a seguinte pergunta:

O que eu tenho para dizer vai servir a alguma coisa?

Provavelmente você se preocupa com o bem-estar emocional de seu amigo. A resposta, neste caso, pode ser SIM. Contar pode ajudá-lo a ter clareza sobre algo de que ele apenas sente consequências, mas que não enxerga. Vai possibilitar que ele faça algo.

Mas isso depende de algumas coisas. Ele está preparado para lidar com isso? Ele prefere saber a verdade? Ele vai mesmo poder fazer alguma coisa a respeito? Ele vai saber lidar com o fato de você saber sobre o que está se passando? Você será capaz de acolhê-lo?

Ou seja, contar a ele vai servir a alguma coisa?

Um problema com a verdade e a necessidade

O sistema é muito simples, a não ser pelo fato de que as perguntas não são fáceis de responder.
É difícil dizer se uma coisa incerta é necessária em uma conversa.
E é difícil entender se uma coisa certamente verdadeira é realmente útil.
O que é certo é que há casos em que a coisa é verdade (pelo menos você está convicto de que é) e ainda assim é melhor deixa-la de lado. Explorar esses casos ajudará a entender tudo isso melhor.

Como isso é importante, dedicaremos um post inteiro para falar sobre isso, o nosso próximo post.

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