O que é bom e não muda

22 de setembro, 2015 - POR Andre Moura

Eu tenho um tio que tem Alzheimer. Ele vive hoje em um asilo e ainda lembra de mim.

Ele não era particularmente uma pessoa de mente brilhante. Por isso acho que não lhe faz falta a memória. Não tanto assim. E assim ele vai vivendo os dias dele, sempre no presente.

É difícil entender e às vezes tento. Dá uma sensação de desespero imaginar perder a memória. Claro, a memória é um bem muito precioso. E ela nos dá poder.

Meu tio não era uma pessoa que tinha nenhum grande poder particular. Por isso acho que não lhe faz falta o poder. Não tanto assim. E assim ele vai vivendo os dias dele, como pode.

Claro, ele não pode se cuidar. Não de forma completamente autônoma. Autonomia é algo que nos dá liberdade, o que é inestimável quando temos. Mas será que sempre?

Meu tio era um cara muito livre, não tinha filhos e vivia por aí, basicamente sustentado pelo dinheiro da família. Mas acho que à liberdade ele não dava muita bola. Talvez preferisse ser cuidado. Sem a autonomia e a liberdade que tinha, hoje ele é cuidado. E assim ele vai vivendo os dias dele, como uma criança.

Acho que ele sente falta de receber visitas. Meu pai vai lá toda a semana. Eu me proponho a ir, mas não tenho conseguido manter a frequência. Isso sim acho que lhe faz falta. Mas não dá para saber. E ele sempre foi e continua sendo um cara difícil. O que não estimula as pessoas a visita-lo.

Por exemplo, ele tem um comportamento que suga a energia de quem está com ele. Fala sem parar, um jeito de manipular a atenção do outro. Agora, como não tem memória direito, repete-se muito. E não fala coisas muito brilhantes.

Ele até é engraçado. Mas cansa.

Talvez uma hora ele canse desse comportamento, não sei. Vê-se nele como os vícios são difíceis de mudar.

Mas, por outro lado…

Outro dia estávamos sentados na varanda que dava para o jardim do lugar, quando um pássaro pousou numa árvore próxima. Vi ele olhando para o bicho em silêncio com um sorriso. Durou poucos segundos, mas eu percebi algo ali. Algo bonito e que não mudou. E que não depende da memória. Um encanto, alguma coisa assim.

Meu tio, é difícil, rabugento, manipulador, mas uma coisa, em particular, eu gosto nele: ele tem um coração grande. Lembro que ele, sempre que via um menino de rua, dava um jeito de dar alguma coisa. Mesmo sem dinheiro e cheio de dívida, como sempre estava nos últimos anos. E ficava genuinamente admirado quando o menino apresentava um número qualquer. “Gostei! Você viu!!! Difícil fazer isso!!”, mesmo que fosse um malabarismo com duas bolas de tênis. Era uma conexão bonita de ver, eu achava.

Quando o pássaro pousou naquela árvore, eu vi aquele mesmo coração. Que é o mesmo que ele tenta esconder quando me vê chegar para visita. No caso do pássaro, como disse, não demorou mais que alguns segundos. Eu perguntei se ele tinha gostado do pássaro e ele disse algo como “xiii, esse bichinho vagabundo!” e gritando disse algo como  “Xô, sem vergonha!!!”. Usando outras palavras menos singelas, umas que achei melhor não colocar aqui e que ele gosta muito de usar.

Da última vez em que o visitei, perguntei à dona do estabelecimento se ele estava bem. Ela não tinha dúvida. Segundo ela, ele está sempre com uma energia boa. Vive brigando – de brincadeira – com as pessoas do lugar (típico dele). Acho que é sua brincadeira preferida. Claro, se eu não contar o quanto ele gosta de mexer com as mulheres que ele acha bonita. Vícios são difíceis de mudar. Mas enfim, como a dona mesmo descreveu, ele parece uma criança.

Disse, lá no começo, que dá um desespero imaginar perder a memória. Na verdade, hoje, não é mais tão assim. Já foi, não é mais. Porque vejo que o que é vivo continua.

E acho que entendi uma coisa: que para a nossa segurança na vida, é mais importante ter construído relações sólidas e profundas, que lutar para preservar qualquer poder. Meu tio tem sorte de ter quem garanta seu cuidado. O que tem a ver com um laço muito sólido, como é o de um irmão. Mas ele poderia ter mais, se tivesse sido mais cuidadoso com as relações durante a vida.

E reflito sobre a importância do trabalho de autoconhecimento. Não pelo trabalho que meu tio faz ou fez em algum momento na vida. Mas pelo meu próprio, na verdade. Porque quando olho para ele me vejo. E vejo nele algo que continua a brilhar, apesar de seus vícios.

Quando conheço em mim o que brilha e não muda com o tempo, um outro tipo de confiança nasce. E fica mais fácil de confiar que a vida dá seus jeitos.

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