Caminhos para um feedback amoroso

17 de setembro, 2015 - POR Andre Moura

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Aquela era a manhã do quinquagésimo aniversário de casamento de Quirina. Ela acordou feliz, porque não é sempre que se comemora 50 anos de qualquer coisa.

Como sempre, foi à cozinha e preparou o desjejum. Um café com leite quentinho e um pão francês que eles partilhavam. O mesmo de todos os dias. E como todos os dias, Antonio chegou do quarto, beijou-a na testa, fez-lhe um carinho no ombro e sentou-se. Ela, então, cortou o pão ao meio, separou o miolo da casca e passou manteiga. Como fazia todos os dias…

Só que dessa vez pensou: “Puxa, eu sempre quis comer  a casquinha… Acho que hoje eu mereço! Vou me presentear e satisfazer meu desejo… só dessa vez”. E assim deu o miolo ao marido. Com um pouco de culpa…

Para sua surpresa, Antonio abriu um sorriso! “Quirina, meu bem! Isso é um presente pelo nosso aniversário? Durante 50 anos eu tive vontade de comer o miolo do pão, mas nunca tive coragem de pedir”.

Eu gosto muito dessa história. Gosto de imaginar a cena depois, com os dois rindo. Provavelmente depois de um momento de incredulidade por terem passado tantos anos vivendo uma fantasia sobre o outro. Ainda que pequena.

Feedback e espontaneidade – 4 cenários

Mesmo que não fosse um grande sacrifício, a concessão que ambos fizeram durante anos era desnecessária e inútil. A história mostra como a falta do feedback pode perpetuar algo de que não gostamos. E isso pode acontecer em situações muito piores que esta contada aqui.

Quero brincar com a história propondo quatro cenários alternativos. Que poderiam ter acontecido anos antes…

Cenário 1 – passado um tempo de vida juntos e incomodado com o que parecia uma atitude egoísta de Quirina, Antonio resolve falar sobre a rotina matinal.

Há alguns dias ele vinha ruminando aquele incômodo. Era como se Quirina só pensasse em si mesma e só quisesse saber de satisfazer seus desejos. Isso não estava certo! Nem uma vez sequer ela havia lhe oferecido o miolo! Nem uminha!!! Aquele dia ele já não podia suportar mais. Então ele explode e coloca na mesa toda sua indignação. Quirina toma um susto!

Daí, o mais provável é que, com algum esforço, Quirina consiga explicar o mal-entendido. Antônio, com um pouco de vergonha, pede desculpas e a vida segue, os dois um pouco amuados.

Cenário 2 –  Antonio, bem incomodado, resolve questionar sobre o comportamento da mulher durante a rotina matinal.

E ele faz isso assim que Quirina lhe passa a casca do pão.

– Quirina, porque você sempre me dá a casca e fica com o miolo?

Desta vez ele não explode, mas a pergunta é feita em tom de acusação. A resposta de Quirina é defensiva mas explica o que acontece. Antonio, tende a duvidar, mas aceita. Quirina fica em silêncio e se sente ofendida por não ter sido reconhecida. O resultado é bem parecido com o do cenário anterior.

Cenário 3 –  Antonio consegue deixar de lado o incômodo e resolve questionar a mulher com uma curiosidade genuína.

– Quirina, porque você sempre me dá a casca e fica com o miolo?

A pergunta é a mesma do cenário anterior, mas o tom muda. Isso altera a reação. Quirina se apressa em explicar sua intenção, tentando deixar claro o amor que havia no seu ato. Antonio, que estava desarmado, reconhece, sorri e agradece. E enfim conta qual é a sua preferência.

Antes de irmos para o quarto cenário, tenho aqui uma observação importante. Os cenários que escolhi falam de dar feedback, sem que ele tenha sido requisitado. Existe uma outra possibilidade para esta história, uma saída que provavelmente teria um caminho muito suave: Quirina, em algum momento, pedir um feedback de sua ação. Pedir feedback é um recurso muito importante e vamos falar sobre ele em um próximo post.

Cenário 4 – três dias após voltarem de sua lua-de-mel, Antonio nota o padrão de Quirina em sua rotina matinal, e resolve falar sobre isso.

– Quirina, querida, porque você sempre me dá a casca?

– É que, Antonio, eu não me importo de lhe dar a melhor parte do pão (a casca), eu gosto de lhe fazer esse agrado.

– Mas, meu bem… – Antonio sorri – eu prefiro o miolo.

– Jura!!!?! Puxa vida, então me dá essa casca aqui! – e os dois riem.

curiosidadeO resultado é parecido com o do cenária anterior. Talvez com um pouco mais de graça.

Esse cenário representa uma reação espontânea. E vejam que interessante: espontaneamente não há acusação, há curiosidade! Parece mesmo que o espontâneo é o mais eficiente. Pelo menos em histórias que se pareçam com essa.

Lições para um feedback que funciona

Acho que o importante aqui é entender que, mesmo se o momento espontâneo passa, a pureza desse estado pode funcionar bem, como aconteceu no Cenário 3.

Como incorporar isso em um feedback? Tenho duas sugestões:

  1. Suspender o julgamento. O que me ajuda a suspender um julgamento, que pode me colocar numa posição de acusação? Uma coisa que faço é me perguntar quais outras histórias podem explicar o que está acontecendo. Reconhecer que há outras histórias possíveis me ajuda a abrir mão de todas elas, inclusive daquela que me “chateia”. Suspender o julgamento não significa abandona-lo, significa colocá-lo de lado… só um pouquinho.
  2. Ir com um espírito curioso. O que eu não sei sobre o que está acontecendo? Quanto eu não sei? Na avaliação que faço da situação, quanto é baseado em coisas que eu acho e não em coisas que sei? Essas coisas que acho, posso perguntar sobre elas e aí ter mais certeza? Todo esse questionamento ajuda a entender que existem coisas sobre as quais quero e posso saber mais.

Um abraço e boa semana!

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