Ter razão ou ser feliz?

6 de setembro, 2015 - POR Andre Moura

viva_felizA primeira vez em que ouvi essa questão eu achei que ela não fazia sentido. Se eu sou feliz eu tenho razão… Não me parecia que era um ou outro. Depois entendi que se tratava de, em certas situações de conflito, abrir mão de ser “aquele que tem A razão” para poder chegar a uma situação de paz.

Não gostei da ideia de abrir mão do que é certo para ser feliz, me pareceu que podia ser uma receita para ‘empurrar com a barriga’ os problemas. Fiquei cético, mas também não disse que não. Deixei a vida andar.

E andou até um sábado de manhã.

Eu passeava sozinho por uma alameda num dia gostoso de sol, quando uma frigideira veio voando sei lá de onde na minha direção. Não, não estou brincando não, era uma frigideira! Inacreditável, né? Na verdade, na hora eu não vi nem entendi o que era. Veio como um freesbie escuro desajeitado. Abaixei por reflexo e o objeto voador passou de raspão e bateu no tronco de uma árvore fina. Era uma goiabeira e três goiabas caíram, uma delas em mim.

Primeiro tomei um susto. E eu sou assim: quando tomo um susto e me parece que algo errado aconteceu, eu logo acho que é minha culpa. Junto com a culpa já iniciei uma análise minuciosa para ver se havia alguma razão compreensível para o que tinha acontecido. Era uma frigideira!? Como pode, uma frigideira!?!

Não, não havia qualquer razão que justificasse aquilo. Senti um alívio (bom, não era culpa minha). Virei então, curioso. E vi um casal discutindo na frente de uma casa, dessas que não tem muros, sabem? Pois é, e ali estava o casal, ele de cueca tipo calção e ela usando um robe. A discussão seguia quente e eu demorei para entender qualquer coisa porque um ficava interrompendo o outro:

Você falou que… Mas não me venha com essa história, você sempre… Você sempre o que? Não vem você mudar de assunto, ontem você não falou que… Falei, mas não importa, porque eu não tive chance… Ah, não teve chance! Como assim!!! São dez horas da manhã!! Alguma hora eu disse que ia acordar cedo? Quando acordei você já estava lavando a panela, com essa cara enfezada…
Ah!!!! Era sobre a frigideira mesmo a discussão! Depois de mais um tempo ouvindo eu entendi… mais ou menos. Vou contar o que eu entendi.

Ele tinha prometido que lavaria a panela assim que acordasse, só que ele acordou tarde e a mulher não quis esperar. E aí estava a sua razão: não era culpa dele que ela não tinha aguentado esperar e a panela já estivesse limpa quando ele se levantou.

Pois é, mas toda história tem dois lados.

E o lado da mulher era que ela sempre acabava lavando a louça, mesmo quando era a vez do moço. Naquela noite ela tinha decidido que não cozinharia se ele não lavasse. E ele prometeu que lavaria. Ao fim da refeição, os dois estavam com preguiça, era tarde e ele a convenceu deixar para o dia seguinte.

O dia seguinte chegou e ela já estava acordada havia um tempo, vendo a louça atrair moscas! No fim, ela não pode esperar. E essa era a sua razão: ele fez de tudo pra que não houvesse outro jeito que não fosse ela lavar a panela… mais uma vez!!!

A razão é uma coisa fria em si, mas, dependendo da sua conclusão, ela pode esquentar bastante as coisas. Acho que era isso que estava acontecendo ali…

Eu entendia a lógica. Dos dois. Mas do lugar onde eu estava, ou seja, de fora da situação, não me parecia que uma panela suja esquecida era motivo pra tanto desgaste?! E, olha, – talvez vocês reconheçam isso que eu vou falar – é bom estar nesse lugar, né? É como estar assistindo um filme. Acho que dá uma felicidadezinha só de saber que “o problema não é meu” e que eu “posso apreciar a beleza da vida sem ter que me envolver em mazelas como essa”.

A moça enfim entrou na casa, bateu a porta com força e aparentemente trancou, porque o moço tentou entrar e não conseguiu. Fez força, empurrou e terminou dando um chute na porta seguido de um grito de raiva. Bufou. Olhou ao redor e deixou os ombros cair, resignado.

Veio então andando até mim, se abaixou do meu lado, pegou a frigideira sem falar nada, e se virou voltando, como se eu não estivesse ali. Ser ignorado às vezes pra mim é bem ruim, e foi aí que veio a raiva. Não achei aquilo certo! Poxa, eles quase me acertaram! Eu teria me machucado se eu não fosse rápido. E ainda uma goiaba caiu na minha cabeça!!! Não era o caso dele me ignorar…

Hei, …. – eu ia demandar uma desculpa, mas por acaso respirei. O dia não estava lindo? Ele me devia um reconhecimento, um pedido de desculpas, eu estaria certo de exigir, eu teria RAZÃO… Mas o dia estava lindo e exigir qualquer coisa ali só ia causar raios e trovões. Olhei o homem subindo a rampa de grama de volta pra casa, carregando um infernozinho dentro dele.

Concluí que eu devia deixar pra lá, mas o fato é que ele me ignorou e em seguida ignorou meu chamado! Eu respirei mais uma vez. Onde me doía aquele descaso. No ORGULHO!!! Exigir qualquer coisa dele seria puro orgulho, necessidade de reconhecimento, me pareceu. Iniciar uma briga ia resolver? No meu caso eu sei que não, porque eu não fico muito feliz quando eu explodo. Eu fico chateado, na verdade. E ainda tinha boas chances de eu não receber qualquer reconhecimento, mesmo assim.

Tá, ok, mas meu orgulho estava ferido. Chamar o outro à razão tinha o claro potencial de gerar mais conflito, não era a melhor solução. Ter razão ou ser feliz? Hummm, eu poderia ir embora, eu não estava assim tão ferido. Nada que mais algumas respirações em silêncio não curassem.

Mas pensei que era uma oportunidade para testar algo.

“Talvez a chave não seja buscar a razão. Talvez a ideia seja eu me perguntar como eu posso me sentir melhor…” O que eu poderia fazer para cuidar do meu orgulho ferido ali?

“Que tal tentar empatia?” pensei. Na dúvida, empatia, acho que essa pode ser uma boa regra. Olhei pra ele e me vi. Em tantas brigas sem sentido que tive com namoradas, com irmãos, com amigos. Percebi também o medo que eu tinha dele, o medo um homem estranho, um medo que me colocava numa situação de defesa. Percebi que esse medo ele também devia ter de mim. Acho que olhei pra ele e entendi. E nessa hora senti uma coisa boa, e um sorriso espontâneo me veio com uma emoção que molhou meus olhos.

Abaixei, peguei uma das goiabas. Estava cheirosa. Limpei na camisa, respirei fundo mais uma vez, mais aliviado, e dei uma mordida.

Foi aí que o homem, pra minha surpresa, se virou e disse:

– Cara, a panela não te pegou não, né? Desculpa a confusão, viu…

Olha!!! Reconhecimento :)

– Não esquenta, cara. Boa sorte, aí.

E eu continuei meu caminho melhor do que comecei.

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